Relator do pacote anticorrupção, Onyx leva as mãos à cabeça ao testemunhar a lipoaspiração do texto
Depois
de abandonar, sob pressão popular, a ideia de se autoconceder uma
anistia para os crimes de caixa dois, corrupção, lavagem de dinheiro e
um enorme etcétera, os deputados aprovaram na madrugada desta
quarta-feira uma emenda com gostinho de
vingança.
O texto foi empurrado para dentro do pacote anticorrupção que chegou à
Câmara apoiado por 2,4 milhões de brasileiros. Trata da punição de
juízes como Sergio Moro e de procuradores como os membros da força
tarefa da Lava Jato por “abuso de autoridade”.
O resultado da
votação, por acachapante, revela o tamanho do desejo da Câmara —apinhada
de investigados— de enquadrar investigadores e julgadores. Votaram a
favor da proposta 313 deputados. Contra, 132 contra. Houve 5 abstenções.
Pressionando
aqui,
você chega à íntegra da lista de votação. Supremo paradoxo: 69,6% dos
presentes, que tinham votado a favor do pacote anticorrupção, aprovaram a
emenda que visa constranger magistrados e membros do Ministério
Público. Apertando
aqui, você vai à integra da emenda.
Pelo
texto aprovado, ficam sujeitos a punições que vão de dois meses a dois
anos de cadeia, mais multa, aqueles que ajuizarem “ação civil pública e
de improbidade temerárias, com má-fé, manifesta intenção de promoção
pessoal ou visando perseguição política.'' Com base nesses critérios
subjetivos, qualquer pessoa pode representar contra um agente público,
inclusive investigados e processados. Ficam sujeitos a punição também
juízes que concederem entrevistas sobre processos pendentes de
julgamento. Ou que fizerem “juízo depreciativo” sobre despachos, votos
ou sentenças alheias.
A emenda da vingança foi apenas uma num lote
de propostas penduradas no pacto anticorrupção com o propósito de
desfigurá-lo. Primeiro, os deputados
aprovaram
o texto com as medidas saneadoras sugeridas pela força tarefa da Lava
Jato, ressalvadas as emendas. O placar sinalizava um apoio maciço à
cruzada em favor da moralidade: 450 votos a favor, 1 contra e 3
abstenções. Na sequência, vieram as emendas que promoveram uma
lipoaspiração no projeto original.
Num instante em que há uma fome
de limpeza no país, os deputados passaram a madrugada votando para
mostrar de que é feito o Legislativo brasileiro. Já não há muitos
inocentes no prédio projetado por Oscar Niemeyer como templo da
democracia. Há apenas culpados e cúmplices.
Onyx Lorenzoni é vaiado e chamado de palhaço
Relator do pacote de medias anticorrupção, o deputado Onyx Lorenzoni
(DEM-RS) foi tratado pelos colegas como um pária durante a sessão que
terminou às 4h18 da madrugada desta quarta-feira. A hostilidade foi mais
acintosa no momento em que Onyx escalou a tribuna para discursar contra
a emenda sobre “abuso de autoridade” de juízes e procuradores. Foi
interrompido pelas vaias. Chamaram-no de palhaço.
“A Câmara dos
Deputados, hoje, deu um passo muito importante no momento em que aprovou
o relatório [com as medidas anticorrupção]”, disse Onyx a certa altura.
“Agora, nós vamos começar o processo de desconfiguração e de destruição
daquilo que é…” As vaias impediram o deputado de concluir a frase.
Onyx
defendia que as sanções a magistrados e membros do Ministério Público
fossem debatidas noutro projeto, não no pacote anticorrupção. “Não cabe
ao Parlamento brasileiro, num momento tão bonito e tão alto, […] se
valer desse projeto para dar um cala-boca em quem investiga, para
ameaçar quem está julgando. O que vão fazer os procuradores? Não vão
denunciar, para não colocar suas carreiras em risco. O que vão fazer os
juízes? Não vão julgar, para não colocar suas carreiras em risco. É isso
que nós queremos? É esse o nosso objetivo?”
Os colegas de Onyx responderam afirmativamente às suas indagações ao
aprovar
por 313 votos a 132 a emenda da vingança. Queriam, sim, que
procuradores procurassem menos, para que os juízes não tivessem tanto o
que julgar.
“Essa emenda será conhecida no Brasil todo como emenda
anti-investigação, contra o combate à corrupção, uma emenda do mal”,
discursou Onyx, antes de dirigir um apelo aos ouvidos moucos que o
observavam: “Por favor, senhoras e senhores, vamos fazer a coisa certa,
discutir em outro projeto. Vamos preservar o projeto das dez medidas
[anticorrupção], não uma vingança pequena, menor e desimportante contra
aqueles que, hoje, têm o respeito da população, porque estão passando o
Brasil a limpo.”
Ao final da sessão, prevaleceu o pedaço do plenário que prefere passar o país a sujo.

Para
o deputado Onyx Lorenzoni, a Câmara desperdiçou uma oportunidade de
elevar sua estatura na votação do pacote de medidas anticorrupção.
Preferiu rebaixar o pé-direito. “A câmara perdeu uma oportunidade de se
reconciliar com a sociedade”, disse Onyx ao
blog, na madrugada desta quarta-feira.
O
deputado acrescentou: “O que é mais triste é que, entre a população e a
corporação, a Câmara optou por olhar para dentro. Ficou com a
corporação. Perdeu a chance de recuperar alguma credibilidade. Sai muito
menor desse episódio. E os próximos meses serão muito ruins. O risco de
abrir uma crise institucional entre Poderes é gigantesca. Judiciário e
Ministério Público vão reagir.”
Para Onyx, as emendas que foram
penduradas no pacote anticorrupção durante a madrugada “desfiguraram
tudo.” Ele enfatizou: “Foi uma destruição.” O projeto seguirá para o
Senado. E o relator receia que o texto fique ainda pior depois que
passar pelo filtro do Senado. - DO J.DESOUZA