sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Submetido a um crime, o Planalto desconversa


Há algo de podre na rede de internet da Presidência da República. Máquinas plugadas ao sistema vêm sendo usadas para alterar perfis mantidos na Wikipedia. Quando a biografia é de membro ou aliado do governo, suprimem-se verdades incômodas. Quando o texto se refere a personagens que o governo vê como inimigos, injetam-se inverdades.
Nesta sexta, soube-se que a rede do Planalto foi usada para enfiar falsidades dentro dos perfis de Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Já se sabia que há no governo pessoas que acreditam na tese segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de imprensa. Essa que está aí, viciada em imprensar, é de péssima qualidade. Descobre-se agora que alguém na sede do governo evoluiu da debilidade cerebral para a criminalidade. Virou caluniador.
Em reação às calúnias, o Planalto divulgou uma nota. No texto, informou que lamenta muito o ocorrido. Mas anotou que é “tecnicamente impossível identificar os responsáveis pelas modificações nos perfis dos jornalistas'' Alega-se que a rede é wi-fi, sem fio. Por isso, “qualquer pessoa, mesmo que estivesse em visita ao Palácio do Planalto, poderia, em tese, ter realizado as alterações''.
Investigação? Nem pensar! Faz sentido. Todo mundo sabe de antemão quem cometeu o crime. É mais ou menos como num jogo de futebol. O sujeito pode ser um Neymar, mas não marca o gol sozinho. Há por trás dele uma estrutura que prepara o chute. O roupeiro, o massagista, o treinador e todo um time em campo para preparar a jogada. No lance da Wikipedia, mal comparando, é a mesma coisa.
O PT defende a regulação da mídia. As autoridades, como comandantes de navio que se queixam do mar, atacam a imprensa. Armada a jogada, o criminoso apenas pluga o computador à rede e comete o crime. Que a Presidência não tem o mais remoto interesse de investigar. Não há inocentes nessa história, só há cúmplices.
DO JDESOUZA

Escândalo: rede de internet do Palácio é usada contra jornalistas.

Carlos Alberto Sardenberg foi um dos atingidos pela vergonhosa atuação da equipe de Dilma: seu perfil na Wikipédia foi alterado.


A rede de internet do Palácio do Planalto foi usada para fazer alterações nos perfis dos jornalistas Míriam Leitão, colunista do GLOBO, e Carlos Alberto Sardenberg, da CBN e Rede Globo, na Wikipédia, com o objetivo de criticá-los. O IP 200.181.15.10, da Presidência da República, foi usado na enciclopédia colaborativa virtual para fazer alterações em maio do ano passado. O IP é uma espécie de identidade digital que permite saber de onde partiram as modificações. No entanto, apenas os administradores da rede do Planalto têm como saber exatamente qual equipamento do local foi usado.
As mudanças ocorreram em uma sexta e uma segunda-feira, dias 10 e 13 de maio. A primeira alteração no perfil de Míriam Leitão, feita dia 10, às 16h43m, foi para qualificar análises suas como “desastrosas”. Três dias depois, às 18h32m, a rede da Presidência voltou a ser usada para incluir trechos contra a jornalista, desta vez associando-a ao banqueiro Daniel Dantas: “Míriam Leitão fez a mais corajosa e apaixonada defesa de Daniel Dantas, ex-banqueiro condenado por corrupção entre outros crimes contra o patrimônio público. A forma como Míriam Leitão se envolveu na defesa de Dantas chamou a atenção de Carlos Alberto Sardenberg, seu companheiro na CBN, para quem a jornalista estava diferente naqueles dias. Para Míriam Leitão, apesar do vídeo que flagrava o suborno a um delegado da Polícia Federal, a prisão de Dantas não se justificava, posto que se tratava de coisas do passado”. Confira infográfico com detalhes das mudanças.
Por fim, às 18h50m, o mesmo IP fez uma última alteração no perfil da jornalista:
“Um dos maiores erros de previsão ocorreu durante a Crise Financeira Internacional. Em 29/06/2009, Míriam Leitão escreveu o seguinte sobre a previsão de crescimento do Ministro Guido Mantega de 4,5% do PIB de 2010: ‘Ele fez uma afirmação de que em 2010 o Brasil está preparado para crescer 4,5%. É temerário dizer isso’. Contrariando o pessimismo de Míriam Leitão, o Brasil cresceu 7,5% naquele ano”.
Procurada pela reportagem, Míriam mostrou-se surpresa com o uso da estrutura do Palácio e desmentiu as acusações:
— É mentira que eu tenha defendido Daniel Dantas. Acho que é espantoso que um órgão público, ainda mais o Palácio do Planalto, use recursos e funcionários públicos para fazer esse tipo de ataque a jornalistas, quando deveria estar dedicado às questões de Estado.
‘É IMORAL, É ANTIÉTICO’
Com Carlos Alberto Sardenberg, a disposição foi semelhante. No dia 10, às 12h51m, quatro horas antes das alterações no perfil de Míriam, o IP do Planalto começou a fazer mudanças no perfil do jornalista. O texto anteriormente publicado já dizia que o âncora da CBN e da Rede Globo era um forte crítico das políticas econômicas de Lula e Dilma, então o equipamento no Planalto adicionou: “... principalmente em relação aos cortes de juros promovidos nesses governos. É irmão de Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban, instituição que tem grande interesse na manutenção de juros altos no Brasil, uma medida geralmente defendida também por Carlos Alberto Sardenberg em suas colunas. Já cometeu erros notáveis em suas previsões, como afirmar que ‘(...)a economia mundial segue em marcha de sólido crescimento. Sólido porque não é nenhuma bolha financeira (...)’ um ano antes de estourar a crise mundial de 2008”.
Três dias depois, às 14h31m, o IP do Planalto foi então usado para criticá-lo explicitamente: “A relação familiar denota um conflito de interesse em sua posição como colunista econômico”.
Procurado, Sardenberg reagiu:
— Minhas opiniões são sempre muito claras. A política do Banco Central tem sido muito errática e sem uma lógica, tanto é que fizeram uma redução de juros forte e, depois, tiveram que subir, então, é óbvio que está errado. É evidente que minha posição é claramente crítica a esse governo. Esse é um debate de ideias, agora dizer que, porque meu irmão trabalha na Febraban, sou lacaio dos bancos é uma canalhice, uma baixaria. É imoral, é antiético, porque você coloca no perfil uma ilação. Usando um equipamento do governo, se faz uma ilação que não pode ser feita — afirmou.
Ao longo dos três anos e meio do governo Dilma, o IP da Presidência foi usado para realizar cerca de 170 alterações na Wikipédia. Muitas modificaram verbetes relativos a órgãos ligados à Presidência e de ministros e ex-ministros como Moreira Franco, Antonio Palocci, Thomas Traumann, Ideli Salvatti e Alexandre Padilha, além do assessor especial da presidente, Marco Aurélio Garcia, e do vice-presidente, Michel Temer.
O Palácio do Planalto afirmou que “o número do protocolo de internet (IP) citado pela reportagem é o endereço geral do servidor da rede sem fio do Palácio do Planalto. Isso significa que qualquer pessoa que utilizou essa rede via internet móvel terá como endereço de saída este número geral de IP. Por isso, não é possível apontar com segurança a identidade de quem alterou os textos citados pela reportagem a partir deste número de IP em maio de 2013”. (O Globo).
DO ORLANDOTAMBOSI