
Os
ministros do Supremo, como se sabe, estão sentados do lado direito de
Deus. Neste domingo, entretanto, Alexandre de Moraes desceu ao
purgatório do Twitter para responder a um post veiculado
aqui
na última sexta-feira. Com a supremacia em riste, Moraes desancou o
repórter: “Ignorância, burrice, apoio ao tráfico, ou tudo junto, que
soma mais de 40% das mortes no país. É fácil criticar sem conhecer a
realidade.” Na sequência, Moraes foi apresentado à realidade das redes
sociais. Descobriu da pior maneira que todos são iguais perante as leis
da internet. Atacado impiedosamente, o ministro chegou a ordenar a um
internauta: “Vá trabalhar!”
Tudo
começou na sexta-feira. Horas antes da exibição do último capítulo de
‘A Força do Querer’, Moraes reclamou numa palestra da suposta
glamorização da personagem Bibi Perigosa, vivida por Juliana Paes.
Declarou que a novela de Glória Perez “mostra aqueles bailes funk, fuzil
na mão,
colarzão de ouro, mulheres fazendo fila para os
líderes do tráfico, só alegria. Aí mostra a Bibi, que se regenerou, ela
tentando procurar emprego e não conseguindo. Qual é a ideia que é dada?
Que é melhor você não largar. Enquanto você não larga, você tá na boa. É
uma valorização. Aí podem dizer que essa é a realidade. Mas tá passando
isso de uma forma glamorizada.”
O repórter sustentou que, no
Supremo, a coisa é muito pior. Anotou que, não fosse uma senhora
bem-posta, Glória Perez talvez dissesse a Moraes algo assim: a TV
Justiça “mostra aquelas sessões plenárias do Supremo, Constituição na
mão, toga sobre os ombros, poderosos fazendo fila à espera de sentenças
que nunca chegam, só alegria. Aí mostra o Aécio, que se safou. A
Primeira Turma tentando impor sanções e o plenário impedindo. Qual é a
ideia que é dada? Que é melhor você não largar o foro privilegiado.
Enquanto você não larga, você tá na boa. Aí podem dizer que essa
realidade precisa mudar. Mas sempre haverá um ministro no Supremo para
pedir vista do processo e declarar, com glamour: 'Tem que manter isso'!”
Ex-ministro
da Justiça de Michel Temer, Moraes não se notabilizou pelo combate ao
tráfico. Coordenou a elaboração de um plano nacional de segurança que a
realidade vai convertendo em pó (com trocadilho!). No Supremo, porém,
Moraes tornou-se notável rapidamente. Pediu vista do processo sobre a
limitação do alcance do foro privilegiado. Com seu gesto, favoreceu
ex-colegas de governo que respondem a inquéritos na Suprema Corte.
Evitou, por exemplo, que ministros como Moreira Franco e Eliseu Padilha
tivessem o mesmo destino do ex-ministro Geddel Vieira Lima, preso
preventivamente na Papuda.
Na resposta ao
blog,
Moraes enquadrou o repórter: “A ignorância de Josias de Souza é tão
grande que não sabe que a vista do foro foi devolvida em setembro.
Estude mais. Criticar é fácil.” Embora reconheça que precisa estudar
muito para alcançar a genialidade de Moraes, o signatário do
blog
não ignora que o ministro já devolveu o processo à presidência do
Supremo. O problema é que permanece pendente de julgamento uma encrenca
que poderia ter sido julgada há 143 dias, não fosse o providencial
pedido de vista. De resto, Moraes renderia homenagens à transparência se
explicasse por que ficou sentado sobre o processo por mais de 100 dias.
Ex-secretário
de Segurança do governo tucano de São Paulo, Moraes compôs no Supremo a
maioria de 6 a 5 que transferiu para o Legislativo a palavra final
sobre sanções cautelares impostas a parlamentares. Graças a esse recuo, o
Senado pôde restituir a Aécio Neves o mandato que a Primeira Turma do
Supremo suspendera. Sobre isso Moraes não se animou a escrever uma
mísera palavra no Twitter. Aos internautas que o criticaram, o ministro
respondeu com uma interrogação: “Vocês concordam com o glamour do
tráfico de drogas, banhado a sangue, contra o trabalho sério do povo
brasileiro?”
O
repórter, por ignorante, não etendeu a analogia que o ministro tentou
estabelecer. No encerramento de ‘A Força do Querer’, Bibi estava
regenerada. Rubinho, seu marido-traficante foi passado nas armas pelo
comparsa Sabiá, que recebeu voz de prisão de Jeiza, uma policial militar
de mostruário. Salvo melhor juízo, Glória Perez quis realçar a tese
segundo a qual o crime não compensa. E a plateia, a julgar pela
audiência, foi trabalhar no dia seguinte embevecida com o sucesso da
novela.
É compreensível que Moraes não tenha gostado do que viu. A
realidade que a ficção exibe só existe porque autoridades como o
ministro fracassam em suas tentativas de combater o crime. De resto,
Moraes está habituado com uma realidade que ultrapassa qualquer ficção.
Os últimos movimentos do Supremo ensinam que não é que o crime não
compensa. É que, quando compensa, ele muda de nome. Só não vê quem é
ignorante e burro. Ou aliado do tráfico (de influência). O repórter,
atento ao conselho supremo —“estude mais”—, não ousaria discordar de
alguém que fala da ignorância e da burrice com tamanha supremacia.
Trata-se, evidentemente, de um especialista.