quarta-feira, 8 de junho de 2011

Palocci já era! Sabem o que vai acontecer agora com o governo? Nada! Eis o problema

Antonio Palocci, o todo-poderoso — o preferido do empresariado, dos mercados, de amplos setores da imprensa e, como todos sabemos, da oposição —, caiu! E sabem o que vai acontecer hoje? Nada! Palocci já era um mito velho, que estava vivendo a fase da engorda, pessoal e de patrimônio. Não encarnava mais a garantia de coisa nenhuma — de competência muito menos, é bom que se destaque. Consta que pretende viajar com a família e fazer dieta. Não lhe faltam recursos para a primeira decisão, e a segunda, nota-se, é uma escolha sábia. Daqui a pouquinho, as mesas começam a operar. Um e outro, para usar a imagem de um amigo do mercado financeiro, vão chacoalhar a macieira com especulação para pegar alguns frutos. Mas vai voltar tudo ao normal.
Se, no primeiro governo Lula, Palocci era a garantia de que o PT não viraria a mesa — muita gente levava o “PT socialista a sério” (eu nunca; acho o partido autoritário; “socialista”, no sentido que nos ensina a história, não) —, no governo Dilma, era a encarnação da racionalidade e da experiência — já que ninguém apostava muito no traquejo político dela. E  com razão. Mas não mais do que isso.
“Virar a mesa” hoje ninguém vai. Até porque os petistas têm sólidos interesses enraizados também no mercado financeiro, por intermédio dos bilionários fundos de pensão das estatais. Ninguém precisa de um “garantidor”. E que se note: o “Palocci amigo da economia de mercado” derivou para um ser teratológico esquisito, de sorte que ele havia se tornado um “ministro de mercado”, o que é coisa bem distinta e, obviamente, condenável. Um chefe da Casa Civil que não pode divulgar sua “lista de clientes” em razão da “cláusula de confidencialidade” está no lugar errado, certo? Não por acaso, com malícia, o vice-presidente da República, o peemedebista Michel Temer, destacou a  fidelidade do petista… aos clientes! No primeiro mandato de Lula, os que temiam o PT radical apreciavam muito no ministro o que era tido, de fato, como convicção — era mesmo alguém convertido às virtudes da economia de mercado. Com o tempo, o ministro passou a ser visto como um facilitador de negócios.
A economia não precisa mais daquela garantia que ele representava no passado. Na Casa Civil, além da coordenação política, exercia o tal papel do “gerenciamento” dos programas do governo — este que Gleisi Hoffmann diz que fará de modo exclusivo. Eis, então, o problema: o governo não parou por causa do escândalo que atropelou Palocci; já estava parado. Até março, a imprensa, com editorais e tudo, não se cansava de elogiar os silêncios de Dilma, coisa que ironizo aqui desde janeiro. Tinha-se a impressão de que ela se sagraria a primeira governante notável por tudo o que não dizia. Seu mutismo era eloqüente. Parecia música aos ouvidos. É que ninguém agüentava mais o ogro buliçoso, o Shrek animadão, a falar sempre pelos cotovelos, cantando as próprias glórias, violando a lógica, o bom senso, o decoro e o bom gosto.
Ali por abril a ficha começou a cair. Não existia ainda um governo Dilma, e não havia indícios de que pudesse haver. A crise que envolve Palocci tem três semanas, mas o não-governo Dilma já conta com quase seis meses. É claro que não dá para fazer um balanço das obras realizadas, mas já dá para saber se as coisas vão andar. E começa a se formar um consenso de que viveremos numa mediocridade pastosa. A marquetagem continua a todo vapor, mas falta a figura do animador das massas. Dilma não tem esse perfil.
Palocci passou a significar um peso imenso depois que se descobriu a sua incrível desenvoltura no mundo da consultoria. Era mais fama do que proveito no Planalto. Querem um exemplo? Perguntem a empresários ligados à área de infra-estrutura o que pensam da decisão de privatizar aeroportos. Fez-se um anúncio no joelho, sem planejamento, sem estratégia, sem nada. A sensação, que corresponde à realidade, desses seis primeiros meses e que o governo não sabe o que quer e para onde vai. O que se teve de mais vistoso — e, ainda assim, mitigado pela crise — foi o tal programa “Brasil Sem Miséria”, nada além de uma vitaminada no Bolsa Família velho de guerra… eleitoral.
Não se viu nem sombra daquele Brasil eficiente e organizado, de que Palocci, o garantidor, tomaria conta, enquanto a Soberana continuaria encastelada, pensando no bem-estar de seus súditos. O Código Florestal, lembre-se, foi exemplo notável de um Palocci incompetente: permitiu que um deputado da base, Aldo Rebelo (PC do B-SP), que tem o apreço de seus pares — já foi presidente da Câmara —, que é reconhecido como um homem honrado, acabasse hostilizado pelo governo e pelo próprio PT porque fez um relatório que concilia a preservação do meio ambiente com a produção. O então ministro quedou-se refém dos delírios de Marina Silva e das ONGs. O que se viu na Câmara foi um exemplo etupendo de desarticulação.
Assim, nesta quarta-feira, não vai acontecer absolutamente nada de novo. E isso está longe de ser uma solução. É um problema.
Agora Gleisi
Chamei Gleisi de a figura mais bonita do plantel de João Santana. É claro que se trata de uma ironia para destacar o fato de que Dilma investiu mais no marketing do que na experiência da escolhida. Sua biografia não a autoriza, do ponto de vista técnico, a ser aquela que vai cobrar dos demais ministros a execução dos projetos. Foi secretária de gestão do Mato Grosso do Sul, no governo de Zeca do PT, e depois da Prefeitura de Londrina. Não há um só tuiuiú que tenha saudade do tal Zeca. Não parece que Londrina tenha sido um caso particularmente virtuoso, segundo andei lendo.
Então Gleisi por quê? Para surpreender o mundo político — e foram os petistas a ficar mais evidentemente com o queixo caído — com um nome fora do mainstream petista. Nestes meses de Senado, Gleisi tem sido “fiel” a Dilma no limite da incompetência. Por falta de tato e de experiência, ela e Marta Suplicy, numa espécie de “conspiração da louras”, conseguiram de tal sorte tumultuar uma sessão do Senado, presidida por Marta, que a base governista, mesmo com maioria esmagadora, viu cair duas Medidas Provisórias. Seu estilo, em tão curto período, rendeu-lhe o apelido de “pit bull”, que não é exatamente uma metáfora para elogiar a sua habilidade. No dia 20 de abril, demonstrei aqui que ela não sabia exatamente quais eram as funções de um Parlamento.
Mas Gleisi já deixou claro que seu negócio vai ser gestão! A coordenação política ficará, supõe-se, com o ministro das Relações Institucionais, pasta atualmente desocupada por Luiz Sérgio, com quem ninguém quer falar: políticos, imprensa e, consta, a presidente da República. Luiz Sérgio, aliás, é uma evidência e tanto de que a inexperiência produz frutos…
Gleisi, no entanto, está sendo saudada aqui e ai mais ou menos assim:
“Agora vai!”
“Agora começa o governo Dilma!”
“Finalmente, Dilma se livra de Lula!”
“Demorou, mas presidente demonstrou independência!”
Entendo! Seis meses depois, há uma certa ânsia para inaugurar o governo Dilma! Será Gleisi  realizar esse prodígio?
Por Reinaldo Azevedo
REV. VEJA

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