O
vídeo acima foi gravado há um ano e dez meses. Exibe uma entrevista do
senador mineiro Aécio Neves. Presidente do PSDB, Aécio defendeu
ardorosamente o aval do Senado à prisão do então senador petista
Delcídio do Amaral (MS). Além de votar a favor, Aécio articulou a
manutenção da tranca do colega, que seria referendada no plenário do
Senado por 59 votos a 13, mais uma abstenção. Hoje, é Aécio quem está na
berlinda. O Supremo Tribunal Ferderal suspendeu-lhe o mandato e
determinou que se abstenha de sair de casa à noite —algo que os
senadores interpretaram como uma decretação de
prisão domiciliar.
Em
novembro de 2011, quando o Supremo ordenou a prisão de Delcídio,
presidia o Senado Renan Calheiros (AL). Embora não morresse de amores
pelo preso, Renan pegou em lanças pela revogação da prisão. Foi ignorado
até pelo PMDB, seu partido. Renan reuniu-se na época com Aécio. Disse
que a prisão de Delcídio, se mantida, abriria um precedente
“perigosíssimo”.
Multi-investigado, Renan parecia advogar em causa
própria. Aécio deu de ombros. Jamais imaginou que a Lava Jato enfiaria
nove inquéritos criminais dentro de sua biografia. Não lhe passava pela
cabeça que o amigo Joesley Batista, da JBS, gravaria uma conversa vadia
na qual sua voz soa pedindo R$ 2 milhões em verbas de má origem.
Na
sessão em que o Senado avalizou a prisão de Delcídio, Renan lamentou:
''O que me cabe, como presidente do Senado e do Congresso Nacional, é
defender, mesmo que essa não seja a decisão da maioria da Casa, as
prerrogativas do Senado Federal. Enquanto estiver aqui, vou defender
essas prerrogativas, com todo respeito ao Supremo Tribunal Federal. O
equilíbrio dos poderes não permite a invasão permanente de um poder no
outro, porque isso causará ao longo dos tempos um dano muito grande à
democracia.”
Derrotado pela maioria, Renan insistiu: “Não é
democrático nós permitirmos que se possa prender um congressista no
exercício do seu mandato sem culpa formada. Compreendo a decisão do
plenário, respeito a maioria. Mas eu, como presidente, não posso
concordar com ela. Eu tenho que defender a prerrogativa do Congresso
Nacional. Talvez um dia nós possamos avaliar o que significou esse dia
triste para o Legislativo brasileiro.”
Na noite desta terça-feira,
diante do silêncio de Eunício Oliveira (PMDB-CE), atual presidente do
Senado, Renan apressou-se em socorrer Aécio. Disse que a suspensão do
mandato e o recolhimento domiciliar noturno de um senador não estão
previstos na Constituição. “Não podemos permitir que uma turma do
Supremo Tribunal Federal, seja a que pretexto for, afaste um senador e
rasgue a Constituição”, vociferou.
A prisão de parlamentares está
regulamentada no artigo 53 da Constituição. Prevê que deputados e
senadores são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos. Só podem
ser presos “em flagrante de crime inafiançável.” Nessa hipótese, o
processo tem de ser enviado pelo Supremo ao Senado ou à Câmara em 24
horas. E a Casa legislativa terá de confirmar ou revogar a prisão.
O
texto original deste artigo da Constituição previa em seu parágrafo 3º
que a decisão dos senadores ou deputados seria tomada “pelo voto secreto
da maioria de seus membros.” Em 2001, porém, o Congresso alterou o
texto por meio da emenda constitucional número 35, suprimindo a
expressão “voto secreto”. Pela nova redação, Senado e Câmara devem
deliberar “pelo voto da maioria dos seus membros.”
Ironicamente,
Aécio presidia a Câmara dos Deputados na ocasião em que o voto secreto
foi apagado desse trecho da Constituição. Renan tentou ressuscitar o
voto na sombra na apreciação da prisão de Delcídio. Escorou-se numa
regra prevista no regimento interno do Senado. Líderes oposicionistas,
entre eles Aécio, reagiram com duas providências. Numa, protocolaram no
STF um mandado de segurança pedindo a concessão de uma liminar que
obrigasse Renan a respeitar o voto aberto. Noutra, apresentaram em
plenário uma “questão de ordem” para que Renan reconsiderasse sua
decisão.
O pedido foi indeferido. Mas Renan, numa liberalidade
inusual, submeteu sua decisão ao plenário. Por 52 votos a 20, mais duas
abstenções, os senadores revogaram a decisão de Renan e restabeleceram o
voto aberto.
Minutos depois da proclamação do resultado, chegou
ao plenário do Senado a notícia de que o ministro Edson Fachin, do STF,
concedera liminar no mandado de segurança ajuizado pela oposição.
Ordenara que o Senado deliberasse à luz do dia, com os nomes estampados
no painel eletrônico. Aécio festejou. Depois, votou “sim”, avalizando a
prisão de Delcídio. Hoje, trancado em seus rancores, o grão-tucano deve
levar sustos constantes diante do espelho.