quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Pajelança de Itu ofende os valores republicanos

Josias de Souza
Michel Temer executou uma ideia extravagante. Neste feriado de 15 de Novembro, transferiu a sede do governo simbolicamente para Itu. Servidores do Gabinete de Segurança Institucional foram à cidade com dois dias de antecedência para assegurar o êxito do deslocamento. Além do avião e de todo o aparato presidencial, mobilizaram-se um par de helicópteros e meia dúzia de automóveis para a segurança. O Exército enviou um destacamento para evitar que os 3% de popularidade de Temer resultassem em contratempos. Perdeu-se a noção de que realizar gastos com esse tipo de pajelança é uma variante do costume antirrepublicano de jogar dinheiro público pela janela.
“A República e a federação foram fatos extraordinários”, discursou Temer. “Como Itu foi o berço da República, viemos aqui para comemorar esse evento e dar um abraço no amigo.” Chama-se José Eduardo Bandeira de Melo o “amigo” citado por Temer. Ex-sócio do presidente num escritório de advocacia, o personagem foi homenageado junto com a República. Recebeu o título de cidadão ituano. E retribuiu a gentileza com generosos afagos verbais: “Tenho profundo orgulho da presença do presidente Michel Temer, que se mostrou não um político, mas um estadista.”
A agenda temerária de Temer fez lembrar um episódio protagonizado por outro peemedebista folclórico. Aconteceu há quase três deçadas, em 25 de fevereiro de 1989. Presidente da Câmara, Paes de Andrade (PMDB-CE) assumiu o Planalto numa das viagens ao exterior do dono da faixa presidencial, José Sarney. Aproveitando a interinidade, Paes enfiou uma comitiva de mais de seis dezenas de acompanhantes no avião presidencial e voou para a cidade onde nasceu: Mombaça, no Ceará.
Recebido com festa e foguetório, Paes de Andrade instalou em Mombaça um Centro Administrativo Federal, convertendo a cidade dos fundões do Ceará numa hipotética Capital provisória do Brasil. Temer não nasceu em Itu, mas tem o coração parcialmente ituano. O presidente veio à luz em Tietê, cidade vizinha. E trabalhou como professor e diretor da Faculdade de Direito de Itu. “A vinda para cá revela aspecto familiar, sou aqui da região e me sinto em casa”, disse Temer, numa passagem, digamos, Mombaça de seu discurso.
Além de ferir o erário e oferecer matéria-prima para uma ação popular de ressarcimento dos gastos, Temer achou conveniente ofender a inteligência da plateia. Disse que há pessoas ''preocupadas com o que está acontecendo no Brasil'', pois o país tem uma ''tendência a caminhar para o autoritarismo.'' Declarou que é preciso prestigiar “certos princípios constitucionais”, sob pena de despertar essa “tendência” nacional de “caminhar para o autoritarismo.”
Temer discorreu sobre as ditaduras que infelicitaram o país no século 20. E declarou que elas não resultaram apenas de golpes de Estado. Aconteceram porque o povo também quis. Alguma coisa subiu à cabeça do presidente em Itu. Foi algo muito parecido com uma gigantesca confusão. Ele aparentemente quis dizer que seus rivais, seus investigadores, seus críticos e todos os que o combatem flertam com o autoritarismo. O orador esqueceu de mencionar (ou lembrou de esquecer) que está na berlinda graças a uma septicemia ética produzida por ele, por seus amigos e por seus apoiadores.
Ao contrário do que insinua Temer, o risco de clamor por um golpe é inexistente. Ao contrário, o brasileiro deseja o fim da ditadura da indecência. O que desperta o desalento social é a blindagem da corrupção. Investigações contra o presidente e seus ministros foram enfiadas no congelador. O Planalto tornou-se um balcão sobre o qual ministérios são vendidos como bananas. Sob a batuta de Temer, o grau de primitivismo político e de fisiologia desafia a memória de todos os fatos históricos. O brasileiro merece uma democracia limpa.

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