A presidente leva o tema do impeachment para dentro do Palácio e dá
sinais claros de que o governo está no ar e não sabe o que fazer.
Enquanto isso, a oposição vê crescer no Congresso o bloco dos que querem
o afastamento de Dilma
Josie Jeronimo -ISTOÉ
Na última semana, em reportagem de capa, ISTOÉ identificou que as
condições para um possível afastamento da presidente Dilma Rousseff
começavam a se desenhar. Os acontecimentos subseqüentes evidenciaram o
clima pró-impeachment. Não se falou em outra coisa no meio político, nos
tribunais, nas redes sociais e nas ruas, cada qual com o seu parecer.
Mas se houve um retrato mais bem acabado do estado terminal do governo,
este foi a entrevista da presidente Dilma Rousseff. Ao responder aos
questionamentos de jornalistas da Folha de S. Paulo, na sequência de uma
reunião de emergência do governo destinada a discutir justamente a
atmosfera de impeachment, Dilma conseguiu cometer o mais crasso erro
político para um governante em perigo: levou o tema do próprio
afastamento para dentro do Palácio do Planalto. Ao confrontar a
constatação dos repórteres de que muitos queriam derrubá-la, a
presidente disse: “Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é
moleza. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou”.
Político experimentado, o senador Romero Jucá (RR) traçou um paralelo
com o comportamento do ex-presidente Fernando Collor, antes de ser
apeado do poder: “A presidente Dilma deu uma de Collor, chamou a crise
para si”.
Em reportagem de capa, na última semana, ISTOÉ detectou o aprofundamento da crise política, que pode levar ao impeachment
Como já é de praxe, nas mais recentes intervenções de Dilma, os
equívocos não cessaram e mostraram uma presidente completamente fora de
órbita. Na mesma entrevista, ao afirmar “não tem base para eu cair. Vem
tentar”, Dilma fez uma espécie de desafio ameaçador aos órgãos de
fiscalização e controle como o TCU e o TSE. Em seguida, depois de
classificar de “golpista” o comportamento de opositores, reconheceu as
manobras fiscais feitas pelo governo – prática de atrasar de forma
proposital o repasse para bancos públicos e privados na tentativa de
esconder o rombo na contas públicas. A justificativa apresentada pela
presidente, no entanto, foi prosaica, como se um erro justificasse o
outro: “O que nós adotamos foi adotado muitas vezes antes de nós”,
disse.
AS DECLARAÇÕES DE DILMA NÃO FORAM BEM RECEBIDAS NO TCU E PROVOCARAM MAL ESTAR ENTRE OS ALIADOS DO GOVERNO
As declarações de Dilma, bem como o seu tom, em vez de dissiparem as
nuvens pesadas que rondavam o Planalto e reanimar a base aliada,
turbinaram ainda mais as conversas sobre o seu afastamento e
aprofundaram a crise. Para o professor do Insper, Carlos Melo, Dilma não
acertou “nem no momento nem no conteúdo”. “Ela estava muito acuada. Há
um clima de desânimo”, acrescentou Paulo Baía, cientista político da
UFRJ. Integrantes de partidos aliados, incluindo o PT, criticaram a
pegada “autossuficiente” e a “empáfia” de Dilma na entrevista, como se
os desdobramentos que levam a um possível afastamento dependessem única e
exclusivamente dela. No TCU, as palavras da presidente foram recebidas
com indignação. “Aqui não tem carteirada”, afirmou um ministro do
tribunal. O relator do processo contra Dilma no tribunal, ministro
Augusto Nardes, foi contundente: “Esta é uma questão técnica do tribunal
de contas. O governo não precisa de um debate político, mas de um bom
advogado”, disse Nardes. Os integrantes do TCU não reagiram apenas às
afirmações da presidente. Incomodaram sobremaneira as gestões do Palácio
do Planalto no sentido de pressionar a corte a votar pela absolvição de
Dilma. O TCU conta com nove ministros. Desses, três estão certo da
rejeição das contas da presidente: o relator, Augusto Nardes, Bruno
Dantas e José Múcio Monteiro. Apesar de ser amigo do ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, se Múcio aprovar as conta de Dilma colocará em
risco seu próprio trabalho no processo de “pedaladas fiscais”. Em seu
voto, o ministro pernambucano apontou que a presidente desrespeitou a
lei de responsabilidade fiscal ao usar recursos de bancos públicos para
pagar despesas do governo. Três ministros devem votar pela aprovação com
ressalvas: Raimundo Carreiro, Benjamin Zymler e Vital do Rego. Assim, a
pressão do Planalto recai sobre os indecisos Walton Alencar e Ana
Arraes. Em um cenário de divisão, o presidente Aroldo Cedraz pode
decidir o futuro de Dilma. Durante a semana, os tucanos alertaram sobre a
tentativa de Dilma de intimidar a atuação dos tribunais. “Na verdade, o
discurso golpista é o do PT, que não reconhece os instrumentos de
fiscalização e de representação de uma sociedade em uma democracia”,
afirmou o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG). A possível
rejeição das contas do governo, pelo TCU, é um dos caminhos que podem
levar à abertura de um processo de impeachment contra a presidente
Dilma. Apesar do assédio sobre os ministros do tribunal, o governo
avaliava no final da última semana que as chances de condenação de Dilma
no tribunal haviam aumentado. Diante desta constatação, o Planalto
desencadeou uma operação na Câmara e no Senado para angariar apoios a
uma eventual decisão desfavorável à petista. É que se as contas do
governo forem reprovadas no TCU o assunto segue para análise no
Congresso.
No TSE, outro foro que pode votar pelo afastamento da presidente, a
situação de Dilma também não é confortável. Na última semana, chegaram
às mãos do ministro João Otávio de Noronha, corregedor que analisa a
ação que investiga Dilma por abuso de poder político e econômico,
dezenas de emails que descrevem em detalhes a pressão sofrida pela
cúpula do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) durante as
eleições de 2014. As mensagens trocadas de agosto a outubro envolvem
funcionários da Diretoria de Estudos Sociais, o presidente do instituto à
época, Sergei Soares, e o então ministro da Secretaria de Assuntos
Estratégicos, Marcelo Neri. Os servidores estavam sendo pressionados a
adequar números oficiais ao discurso de campanha de Dilma, que mostravam
um cenário róseo à população. Projeções sobre redução da extrema
pobreza foram usadas como se fossem resultados de pesquisas. Irritado
com a utilização de dados forjados em nome do IPEA, o diretor do
departamento de Estudos Sociais Herton Ellery Araújo pediu exoneração no
dia 13 de outubro. Para evitar sua saída e um escândalo às vésperas do
segundo turno das eleições, o ministro Néri, mandou um email sob o
título de “cuidado” para o funcionário, no dia 14. “Pensa com carinho na
minha proposta. Ao mesmo tempo preservamos a instituição e as pessoas,
inclusive você”, escreveu Neri.
ALÉM DO PSDB, PRÓXIMAS MANIFESTAÇÕES CONTRA DILMA DEVERÃO TER O APOIO DO PTB, PSB E SETORES DO PMDB
SEMELHANÇAS COM 1992
Enquanto o PSDB se aproxima dos movimentos de rua, Romero Jucá,do aliado PMDB, diz que Dilma "dá uma de Collor"
Para que a chama do impeachment permaneça acesa até a conclusão dos
processos no TCU e no TSE, a oposição aposta na mobilização popular.
Conforme apurou ISTOÉ, os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Cássio
Cunha Lima (PSDB-PB) ficaram encarregados de fazer a ponte com os
movimentos de rua, que marcaram para o dia 16 de agosto – mesmo dia em
que os caras pintadas, em 1992, ocuparam as principais avenidas do País –
a nova grande manifestação contra a presidente Dilma. Em março, o
partido não encampou os protestos para evitar dar conotação partidária à
insatisfação popular. Desta vez, a legenda pretende agir de modo
diferente. Porém, ao resolver dialogar com os movimentos sociais o PSDB
decidiu que a contribuição do partido não será a tarefa de arregimentar
militantes e sim a de propor as bandeiras a serem empunhadas pelos
líderes dos movimentos. Um dos motes será “Não vamos pagar a conta do
PT”, numa referência à crise econômica em que se encontra o País.
Articulados com o PSDB, os movimentos também defenderão a renúncia de
Dilma e a realização de novas eleições, além do impeachment. O PTB, o
Solidariedade e setores do PMDB também ensaiam ir para as ruas. À
esquerda, o protesto pode ganhar a adesão, ainda, do PSB. A cúpula do
partido é simpática às manifestações. “Não concordamos com a ideia de
que impeachment seja golpe. Dependendo do aprofundamento da crise, vamos
analisar e tomar uma decisão. A fragilidade de Dilma é semelhante ao
período pré-impeachment de Collor”, afirma Carlos Siqueira, presidente
do PSB.
Fotos: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO; Jorge William / Agência O Globo,
WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO; José Cruz/ Agencia Brasil DO WELBI
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