sábado, 28 de julho de 2012

O especialista, as mortes em São Paulo, o PCC, as drogas e as tolices sobre a descriminação em Portugal. Ou: Continuo a aguardar as explicações e os números

Vi ontem na televisão o advogado Pedro Abramovay. Em breve, ele estará ensinando como se cuida de espinhela caída, unha encravada, disenteria e dores de amores. No Jornal Nacional, ele opinava sobre as propostas para um Novo Código Penal, mas também oferece consultoria sobe combate às drogas — ou a falta dele, que é a sua proposta, mas só para “pequenos traficantes” — e é especialista em segurança pública.
Abramovay afirmou uma coisa grave, séria. Como está falando na TV, é sinal de que tem credibilidade — ou, ao menos, lhe dão a dita-cuja. Segundo ele, quem responde pela queda de mais de 80% no número de jovens mortos em São Paulo ao longo de 10 anos é o PCC. Ele não disse o nome do grupo — ao menos não saiu no jornal O Globo. Lá está que é uma facção criminosa.
Eu continuo interessado no assunto e aguardo as provas. O tema é tão sério que não pode ficar assim, por isso mesmo… Se ele não as apresentar, e acho que não vai, começarei a suspeitar que está fazendo proselitismo de olho nas urnas. Como não é candidato (que eu saiba), então pode estar atuando para quem é — agora ou em 2014.
Não se trata de matéria de opinião, o que todo mundo tem. Achismo bom é o das pessoas da rua, aquelas que antigamente se chamavam “os populares”. Já que falou como um “impopular”, um “especialista”, supõe-se que seu discurso se ancore em, no mínimo, hipóteses plausíveis, talvez o máximo a que se possa chegar em ciências humanas. Cadê os dados?
Talvez “uma fonte muito boa” tenha contado algo a ele, como vivem contando pra mim… Não saio alardeando por aí porque é preciso ter responsabilidade, não é? Se não reúne as evidências — e óbvio que ele não as tem —, que ao menos se encarregue de buscá-las. Mascarado do PCC falando com voz de pato não vale. Isso o Programa do Gugu já fez no passado… De lá pra cá, avançamos um pouco.
Eu me interesso pelo pensamento desse moço porque a gente nota que ele consegue ser muito convincente — e eu também quero ser convencido, ué…. Quando foi demitido pela presidente Dilma, ainda na Secretaria Nacional de Justiça e prestes a assumir a Senad (Secretaria Nacional de Polícias Sobre Drogas), havia defendido que se deixasse de prender os “pequenos traficantes”.
Como já temos uma lei que não prende consumidores — basta lê-la, e, pois, a campanha “É Preciso Mudar”, que ele orienta, mente a respeito —, eu gostaria de saber o que ele entende por “pequeno traficante” e como isso seria definido. Os policiais andariam com uma balança de precisão para pesar as drogas, por exemplo? Ficaria ao arbítrio de cada policial definir quem trafica e quem não trafica?
A proposta é do balacobaco porque, uma vez definida a quantidade que caracteriza a imunidade, é evidente que os traficantes passarão a operar até esse limite, situação, então, em que o Brasil descriminaria não apenas o consumo, mas também o tráfico. E eu aguardo que o sr. Abramovay me explique onde está a falha lógica do meu raciocínio. Também me interesso em saber se a soma de “pequenos traficantes” devidamente descriminados não servirá aos grandes. No que concerne ao pensamento propriamente econômico, gostaria de saber como funciona essa, vamos dizer, azeitada na demanda com o estrangulamento da oferta — já que o tráfico continuaria proibido — o grande…
Não sei se entendo direito, mas é possível que sua proposta seja, assim, uma espécie de incentivo à formação de pequenos empresários; quem sabe seja o estímulo ao artesanato no mundo das drogas, estimulando a venda personalizada do bagulho, entenderam?, em regime de pequena empresa. O “pequeno traficante” poderia até ter direito ao Simples, como essas donas de casa que fazem bombons caseiros.
Acho que Abramovay tem de escrever a respeito. Mas tem de dizer como funciona. Eu quero dados. Quero que se estabeleçam as quantidades que caracterizam o consumo, o pequeno tráfico e o grande. Que ele é um cara bacana, só pensa no bem da humanidade, é contra a violência, disso tudo eu já sei. Também sou (talvez não tão bacana). Já que existe uma proposta de Código Penal no Senado que, nesse particular, se alinha com a dele, cobro um artigo detalhando a operação da coisa. Não precisa escrever aqui. Não faltará quem acolha o seu pensamento.
Uma entrevista e o caso de Portugal
O especialista costuma pontuar a sua fala com pesquisas feitas aqui e acolá, o que conferiria suposto peso científico e objetividade à sua opinião. Leiam o que ele pensa aqui.
Nessa entrevista, Abramovay afirma que a descriminação das drogas em Portugal não levou a um aumento do consumo. Qual é a fonte? Levou, sim! Houve um aumento estimado de 4,2%, e subiu de 7,8% para 12% a percentagem de pessoas que experimentaram drogas ao menos uma vez. Em Portugal, existe o IDP (Instituto de Drogas e de Toxicodependência). Lá como cá, os defensores fanáticos da descriminação tendem a ignorar a realidade. Caso se leiam as entrevistas de seus diretores, seremos informados de que o sucesso é retumbante. É??? Vejam estes dados do próprio IDP. As drogas foram descriminadas em 2001. Reparem no que aconteceu nos anos seguintes. Mais: a taxa de homicídios por 100 mil habitantes em 2003 (1,43 por 100 mil habitantes) cresceu 43% em relação a 2001, ano da descriminação (1,02 por 100 mil). Em 2010, ficou em 1,26 (crescimento de 24% em relação a 2001). Os homicídios relacionados às drogas cresceram 40%.
Não obstante, o sucesso da política do país é alardeado pelos tais fanáticos dentro e fora dos domínios portugueses. Ainda que fosse verdade (não é, como se vê), note-se: Portugal é menor do que Pernambuco e tem uma população INFERIOR À DA CIDADE DE SÃO PAULO. Quando as drogas foram descriminadas por lá, reitero, a taxa de homicídios era de 1,02 por 100 mil. E cresceu 24% ao longo de 9 anos. A do Brasil é quase VINTE E QUATRO VEZES MAIOR HOJE! Ah, sim: Portugal não é rota preferencial do tráfico. O Brasil é.
Observem o que aconteceu com a apreensão de drogas nos anos subsequentes. A parte continental do país, com o mar a oeste e ao sul, tem uma costa de 1.230 km apenas; ao norte e ao leste, um único vizinho: a Espanha. Banânia tem 9.230 km de Litoral a serem vigiados e faz fronteira com nove países. Quatro deles são produtores de coca: Colômbia, Venezuela, Peru e Bolívia. O Paraguai é um grande exportador de maconha. Mas o especialista Abramovay acredita que Portugal pode servir de exemplo a um gigante com as características do Brasil, com uma população 18 vezes maior, num quadro de brutal desigualdade, desaparelhamento da polícia, fronteiras desguarnecidas… Pior não é dizer o que diz; pior é lhe darem trela.
Há muitos outros simplismos até risíveis em sua entrevista e erros elementares de lógica. Tratarei deles em outros textos. Se quiserem ler, vejam lá. Uma coisa me incomodou porque, aí, tem a ver com honestidade intelectual mesmo. Nessa entrevista cujo link vai acima, que está sendo recomenda lá na página “É Preciso Mudar”, Pedro Abramovay diz:
“Na entrevista a O Globo eu não usei o termo ‘pequenos traficantes’, porque não é disto que estamos falando. Estamos falando muito mais de usuários que de traficantes. Não é uma fronteira muito clara, mas estamos falando, sobretudo, de usuários. A gente está, sim, prendendo usuários no Brasil. A gente precisa desarmar o que montamos para nós mesmos.”
Notem, de todo modo, que a negativa dele não é, assim, peremptória, firme…
Pedrinho! Não brinque com a minha memória! Em outubro de 2009, você era secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (lembra-se?). O titular era Tarso Genro (toc, toc, toc…). O Ministério, sob a sua influência, defendia justamente uma proposta para livrar da cadeia o… pequeno traficante! Reproduzo as suas palavras literais, publicadas no dia 23 de outubro daquele ano no Globo:
“Nós sabemos o que acontece nos presídios: as pessoas são detidas com pequenas quantidades de droga e acabam entregues de mão beijada para as organizações criminosas. É preciso separar o pequeno do grande traficante. Não haverá projeto de iniciativa do governo, mas vamos apoiar a proposta de mudança no Congresso”.
E aí você voltou ao tema em 2010.
Dos outros furos lógicos e impropriedades, tratarei em outros textos. Agora estou como o Pequeno Príncipe. Não desistirei de algumas perguntas. E, claro, continuo a esperar as provas e evidências de que é o PCC quem salva vidas em São Paulo, não a Polícia Militar. Coragem!

Rio, São Paulo, a violência, a imprensa e as diferenças

O Rio viu cair o índice de homicídios, embora ele seja ainda bastante alto — o dobro do de São Paulo, que também é elevado, sim, mas um dos mais baixos do país, com queda de mais de 70% em 12 anos. A vida dos policiais fluminenses também não é fácil. Erros acabam acontecendo. Ontem, numa operação na Favela da Quitanda, em Costa Barros, uma menina foi morta numa troca de tiros entre o BOPE e traficantes. Bruna da Silva Ribeiro, de 11 anos, levou um tiro na barriga. Foi internada, mas, infelizmente, não resistiu. Os policiais estavam à caça dos bandidos que tinham atacado uma UPP e matado uma policial.
Antes mesmo de saber que a menina havia morrido, os moradores da área protestaram contra a ação da Polícia. Pararam um ônibus e o incendiaram. No fim de junho, Taiane Medeiros, de 20 anos, morreu numa outra troca de tiros entre policiais e traficantes perto da Favela do 48, em Bangu, Zona Oeste. Dois dias antes, tinha sido a vez de Rosiléia de Oliveira da Silva, de 19 anos, também durante uma incursão de policiais, desta feita no Morro do Chapadão, na Pavuna. Ela estava dentro de casa, coma a filha de um ano no colo, que também se feriu.
Anteontem, policias da UPP do Andaraí mataram dois jovens, um de 18 e outro de 21 anos. O PMs afirmam que eram traficantes, estavam armados e atiraram contra uma patrulha. Os dois morreram com um único tiro de fuzil, calibre 7.62 — acertou o roto de um e a nuca do outro A família e vizinhos dizem que eles não estavam traficando e que se tratou de uma execução.
Três mortos por balas perdidas durante operações policiais em um mês, ônibus queimado, acusações de execução sumária, um tiro matando dois, atingindo rosto e nuca… E nada disso vai gerar reação histérica da imprensa e dos ditos “especialistas”. Até porque, por mais lamentáveis que sejam as ocorrências — e são —, não é mesmo o caso. É preciso antes apurar o que aconteceu.
São Paulo não tem por que invejar a segurança pública do vizinho — fosse o caso, haveria de ser o contrário… Vai demorar até que o Rio reduza à metade os mortos por 100 mil habitantes. O que chama a minha atenção é a diferença de tratamento dispensada a um estado e a outro. No Rio, não importa o que aconteça, sempre se está no caminho certo. Por aqui, não importa o que aconteça, sempre se está no caminho errado.
Chegou a hora de a imprensa parar de fuzilar o bom senso. A diferença de tratamento é escandalosa e injustificada.  Ponto.
Por Reinaldo Azevedo
RE VEJA

Nenhum comentário:

Postar um comentário