domingo, 23 de abril de 2017

A bala de prata do Tríplex


Laudo comprova que a ex-primeira-dama Marisa Letícia assinou acordo de compra da cobertura da família Lula no Guarujá
É DELA
Apesar de negar, ex-primeira-dama Marisa Leticia assinou termo para adquirir o tríplex 
Pedro Marcondes de Moura
ISTOÉ
Desde que surgiram as suspeitas de ocultação de patrimônio, a família do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nega que seja proprietária do tríplex no Guarujá. A cada nova prova, lança uma versão. E foram muitas tentativas para se livrar de investigações e denúncias de crimes, como lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Procuradores federais dizem que, nas próximas semanas, poderão usar o que chamam de “bala de prata do caso tríplex.” Até lá ficará pronta a perícia da proposta de adesão firmada pela ex-primeira-dama Marisa Letícia com a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), em abril de 2005, para aquisição de uma unidade no Condomínio Mar Cantábrico, renomeado Solaris. O documento foi apreendido na 22ª fase da Operação Lava Jato em busca e apreensão na entidade. Chamou a atenção dos investigadores o fato de o acordo de compra do imóvel estar rasurado no campo que indica o número da unidade. Em primeiro plano, lê-se 141 como o apartamento em que a família Lula investiu. Só que é possível ver que a inserção do número ocorreu em cima de outro: o 174. Era esta a identificação da cobertura que a família Lula nega ser dona. O apartamento foi renumerado depois para 164 por mudanças na planta. Há ainda outro rabisco no papel que tenta esconder a palavra tríplex. Os investigadores solicitaram uma perícia para evitar recursos da defesa. Na prática, a manipulação não deixa margens a dúvidas de que a ex-primeira-dama chegou a optar pelo tríplex.
A pedido de ISTOÉ, o perito Ricardo Molina examinou o documento. No laudo, ele atesta que o número 141 foi escrito em cima de outro. “(A análise) não deixa dúvidas de que o número existente antes da rasura era 174”, afirma. Outros riscos no documento complicam a família Lula. “Trata-se de uma cobertura com garranchos não legíveis, ou seja, meros rabiscos cuja aparente intenção seria apenas de cobrir a escrita original. Apesar da intensidade dos rabiscos sobrepostos, fica evidente que a escrita original era a palavra “tríplex”. As letras “t”, “r”, “i” e “x” estão bem definidas. Ora, não existe qualquer outra palavra na língua portuguesa, que não seja “tríplex”, que combine esse conjunto de letra”, atesta. Para Molina, a análise do documento mostra que as alterações foram realizadas para mascarar propositalmente os escritos que se encontravam embaixo.
Para os investigadores, a rasura do termo de adesão comprova delito digno de pena de quatro anos de reclusão a quem tiver realizado e justifica até prisão preventiva. Eles acreditam que integrantes da Bancoop, cooperativa ligada ao PT, tentaram alterar a prova. Desde o começo, o ex-presidente evitou dizer que seu apartamento possuía um número. Afirmava que tinha apenas uma cota do empreendimento. Desmentido por depoimentos e entrevistas de proprietários em reportagem publicada por ISTOÉ em janeiro, o instituto que leva o nome de Lula lançou a nota “Os documentos do Guarujá: desmontando a farsa”, em que declarou que o apartamento escolhido era o 141. Mesmo assim, não mostrou proposta de adesão do imóvel assinado. Mas por que, então, adulterar e não sumir com o documento ou fazer um novo? Se o termo sumisse, as suspeitas se ampliariam, já que a Bancoop mantém a documentação de outros imóveis. Criar outro seria arriscado.“Tratando-se de documento com número de série e já impregnado com visíveis marcas do tempo, uma falsificação recente deixaria marcas muito evidentes”, afirma o perito Molina. Na casa do ex-presidente Lula, a Polícia Federal apreendeu um termo de adesão em branco do tríplex.
É DELA
Apesar de negar, ex-primeira-dama Marisa Leticia assinou termo para adquirir o tríplex
Como ISTOÉ mostrou na última edição, a decisão da Justiça paulista de enviar a denúncia sobre o caso tríplex do Ministério Público paulista para a Justiça Federal do Paraná trouxe o compartilhamento de provas robustas. Os promotores pediram a prisão do ex-presidente, entre outros, pelos crimes de lavagem de dinheiro e de falsidade ideológica. Os depoimentos colhidos pelo Ministério Público indicam que a Bancoop alterou a numeração dos apartamentos para que a cobertura do tríplex tivesse vista para o mar. Confirmam que Lula visitou o apartamento. A ex-primeira também acompanhou as reformas de mais de R$ 700 mil pagas pela OAS do imóvel que diz nunca ter sido dela.
Foto: Ueslei Marcelino
01.04.16 - DO R.DEMOCRATICA

Temer acha corrupção ‘triste’, mas não faz nada

Josias de Souza

Carlos Drummond de Andrade escolheu como epígrafe do livro Claro Enigma um verso de Paul Valéry: “Les événements m’ennuient”. Significa: os acontecimentos me entediam. Ou me chateiam, numa tradução livre. Michel Temer poderia adotar o mesmo verso como lema de sua gestão. Mais do que revolta, o comportamento do presidente diante da crise moral começa a provocar uma onda de tédio.
Em entrevista à espanhola TVE, Temer concordou com o entrevistador quando ele disse que é triste ter dezenas de políticos acusados de corrupção no Brasil. “Sim, me parece triste, não posso falar outra coisa”, aquiesceu o entrevistado, antes de deixar claro que sua tristeza não tem a menor serventia: “Em relação a essas investigações, temos que esperar que o Poder Judiciário condene ou absolva as pessoas.”
Dois espetáculos não cabem no mesmo palco. Ou no mesmo governo. Dividido entre uma encenação e outra, a plateia não dá atenção a nenhuma das duas. Temer anuncia que está em cartaz a novela das reformas. Mas a hecatombe da Odebrecht faz piscar outra palavra no letreiro: c-o-r-r-u-p-ç-ã-o. A estratégia de Temer é clara: simular desgosto com a podridão e tentar arranca as reformas do Congresso apodrecido.
Noutra entrevista, dessa vez à agência de notícias Efe, Temer reiterou que deseja descer ao verbete da enciclopédia como o presidente que ''reformulou o país''.  Vaticinou: ''A melhor marca do meu governo, será colocar o país nos trilhos.” Bocejos! O presidente parece dar de barato que, na disputa por um lugar no cartaz, o vocábulo “reformas” prevalecerá sobre “corrupção”. Será?
Fernando Henrique Cardoso gosta de dizer que, sob atmosfera caótica como a atual, o Brasil costuma avançar. De fato, a crise atenuou as resistências ideológicas às reformas. As corporações ainda brigam pela preservação de privilégios. Mas estão meio zonzas. Amedrontado, o Congresso talvez se mexa.
Supondo-se que Temer consiga aprovar algum tipo de reforma trabalhista e previdenciária, os efeitos das mudanças serão avaliados mais adiante. A imagem do seu governo, porém, é um problema urgente. Com a popularidade roçando o chão, Temer associa sua agonizante figura a uma tríade de símbolos tóxicos: cumplicidade, suspeição e acobertamento.
Acomodado por delatores no centro de cenas nas quais foram negociadas verbas eleitorais espúrias e propinas milionárias, Temer só não é investigado porque a Procuradoria-Geral acha que ele dispõe de imunidade temporária enquanto estiver na cadeira de presidente. Contra esse pano de fundo enodoado, o presidente passa a sensação de que não dispõe de moral para agir. Daí, por exemplo, a presença de ministros suspeitos no governo.
Quando escuta Temer dizer que fica “triste” com a suspeita de roubalheira que recai sobre tantos políticos, a plateia boceja de tédio. As manifestações do presidente dão sono antes de irritar. Confrontadas com os avanços da Lava Jato, suas palavras mostram que, no Brasil da Lava jato, o pesadelo tornou-se menos penoso do que o despertar.
Em meio aos dois espetáculos que estão em cartaz, Temer se divide. Do ponto de vista econômico, a aura do presidente pertence à modernização. Do ponto de vista político, Temer se esforça para simbolizar o que há de mais anacrônico. Acossado pela hecatombe moral, Temer reage à moda do avestruz: enfia a cabeça na sua pseudo-tristeza. De duas, uma: ou Temer morrerá de tédio ou acabará gritando diante do espelho: “Fora, Temer”. DO J.DESOUZA

sábado, 22 de abril de 2017

Leia a decisão do juiz Bretas que põe Sérgio Cabral pela sétima vez no banco dos réus

Em seis páginas, magistrado da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio recebeu a mais nova denúncia criminal contra ex-governador, agora por supostas fraudes e cartel nas licitações da reforma do Maracanã para a Copa 2014 e do PAC-Favelas
Sérgio Cabral presta depoimento do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na zona oeste do Rio. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO-21/2/2017
Sérgio Cabral presta depoimento do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na zona oeste do Rio. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO-21/2/2017
Em uma decisão de seis páginas, o juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio, abriu nova ação penal contra o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB). Desta vez, o peemedebista é acusado de fraudes nas licitações da reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014 e do PAC-Favelas.

Documento

É a sétima vez que Cabral vai para o banco dos réus. Agora, o acompanham outros dezenove acusados, entre eles antigos assessores no governo fluminense, o empreiteiro Fernando Cavendish, da Delta Engenharia, e o executivo Benedicto Júnior, o ‘BJ’, da Odebrecht, um dos 77 que a empreiteira escalou para fazer delação premiada.
A origem da nova denúncia são as Operações Calicute e Saqueador – a primeira, deflagrada em novembro, prendeu Sérgio Cabral, ora no presídio de Bangu 8.
“Narra o Ministério Público Federal que a presente denúncia se refere aos pontos de interseção entre os esquemas criminosos que são objetos das chamadas Operações Calicute e Saqueador, que tramitam perante este Juízo, referindo-se especificamente às tratativas levadas a efeito pelos executivos das empreiteiras Delta, Andrade Gutierrez, Carioca Engenharia, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa, Camter e EIT para fraudar a licitação de dois conjuntos de obras executadas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro com recursos federais, a saber, a reforma do estádio do Maracanã para a Copa de 2014 e as obras do programa de urbanização e regularização fundiária denominado PAC-Favelas”, assinalou Marcelo Bretas, em sua decisão datada de quarta-feira, 19.
O juiz apontou, com base na denúncia da Procuradoria da República, que Cabral e aliados teriam formado ‘grupo cartelizado que atuava para eliminar a concorrência nas grandes obras públicas executadas por aquele Governo estadual.
As fraudes nas licitações do Maracanã e do PAC-Favelas foram reveladas em delação premiada por executivos da Andrade Gutierrez. À Procuradoria-Geral da República eles ‘reconheceram a prática de delitos em prejuízo da Petrobrás, da Eletronuclear e também do governo do Estado do Rio’.
“As declarações dos colaboradores mencionaram expressamente as obras de reforma do estádio do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014, além de outras grandes obras públicas de construção civil, dentre as quais a construção do Arco Metropolitano e a urbanização de grandes comunidades carentes na cidade do Rio de Janeiro – PAC-Favelas, todos custeados com recursos federais”, assinalou Bretas.
Com a adesão de outros executivos aos acordos de leniência da Andrade Gutierrez e também da empreiteira Carioca Engenharia ‘foi possível identificar que o esquema criminoso seria liderado pelo então governador Sérgio Cabral e que o esquema encontrava-se espraiado por diversas searas da administração do Governo do Estado do Rio de Janeiro’.
Na sétima denúncia contra o ex-governador, o Ministério Público Federal argumentou que ‘o aprofundamento das investigações revelou que a atuação de Sérgio Cabral não se restringiu aos fatos antecedentes dos crimes de lavagem de dinheiro objeto da Operação Saqueador, tendo identificado a existência de uma organização criminosa dedicada também à prática de crimes de corrupção, fraude a licitações, cartel e lavagem de dinheiro na execução de obras públicas financiadas ou custeadas com recursos federais, o que resultou na deflagração da Operação Calicute.
“Verifico, ainda, estarem minimamente delineadas a autoria e a materialidade dos crimes que, em tese, teriam sido cometidos pelos acusados, o que se afere do teor da documentação que instrui a exordial, razão pela qual considero haver justa causa para o prosseguimento da ação penal”, decidiu Bretas, ao mandar Sérgio Cabral pela sétima vez ao banco dos réus. DO ESTADÃO

Veja os documentos do MPF sobre a relação de Lula e Léo Pinheiro, da OAS

Os documentos foram anexados pelo Ministério Público Federal (MPF) na ação penal em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi acusado por Léo Pinheiro, da OAS, de ser o dono do triplex no Guarujá
O presidente afastado da OAS Léo Pinheiro. Foto: Beto Barata/AE - Março/2003
O presidente afastado da OAS Léo Pinheiro. Foto: Beto Barata/AE – Março/2003
O Ministério Púbico Federal anexou no último dia 11 uma série de relatórios e documentos na ação penal que investiga o triplex no Condomínio Solares, no Guarujá. As informações são parte das provas que os investigadores e o próprio ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, devem utilizar para provar que o imóvel foi uma forma da empreiteira repassar valores indevidos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Os documentos mapeiam as ligações entre o empreiteiro e pessoas ligadas a Lula, as viagens de veículos do Instituto Lula para o Guarujá e registros de reuniões entre Lula e Léo Pinheiro, que agora o acusa de ser o real dono do triplex.
O jornal O Globo revelou hoje que Léo Pinheiro pretende entregar documentos para provar o que disse ao juiz Sergio Moro, na última quinta-feira, 20. Pinheiro afirmou que o apartamento era de Lula e o valor do imóvel foi abatido de um encontro de contas de “propina”.
A cópia de um e-mail, no qual um funcionário do Instituto Lula envia a agenda do ex-presidente do dia três de junho de 2014, revela um encontro entre os dois. Ao juiz Moro, o empreiteiro citou uma conversa no mesmo mês entre os dois em que Lula teria pedido a destruição de provas de possíveis repasses da OAS para Vaccari – ex-tesoureiro do PT. ‘Você tem algum registro de algum encontro de contas feitas com João Vaccari com vocês? Se tiver, destrua’”, teria dito Lula, segundo Léo Pinheiro.
Outro encontro, de acordo com e-mail anexado, teria ocorrido às 16h do dia 25 de julho de 2014. Nos mesmo ano, as agendas de Lula ainda aponta reuniões em 13 de outubro e 10 de novembro.

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Um dos documentos juntados ao processo é um relatório sobre as viagens dos veículos do Instituto Lula para o Guarujá. O mapeamento foi feito por meio da análise do dados do sistema de pedágio Sem Parar. O MPF também preparou uma análise de todas as ligações realizadas entre números de telefone em nome de Léo Pinheiro e pessoas próximas ao ex-presidente. Entre os nomes mapeados estão o do ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhados, José di Filippi, do presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e do segurança de Lula, Valmir Moraes da Silva.

Documento

Para Okamotto, apontado como braço-direito de Lula, são mais de 100 ligações entre 2012 e 2014. Sombra do ex-presidente, o segurança Valmir Moraes recebeu em seu telefone ao menos 12 chamadas de Léo Pinheiro. Do Instituto direto para o empreiteira o MPF elencou apenas uma ligação em 20 de maio de 2014.
O MPF também reuniu na ação penal e-mails e anotações sobre reuniões e encontros entre Léo Pinheiro e Lula no ano de 2013. Na agenda de 3 de setembro de 2013, enviada por um funcionário do Instituto para vários e-mails de pessoas próximas ao ex-presidente, consta que às 17h30 naquele dia ele receberia Léo Pinheiro para um encontro.
Outras anotações juntadas são sobre recados e ligações do pretenso delator ao Instituto Lula para tentar falar com Paulo Okamotto. Em 3 de outubro de 2013, por exemplo, uma funcionário do Instituto manda e-mail para outra pessoa do setor financeiro: “Marta, o Leo Pinheiro disse que está tentando no celular do sr. Paulo, mas sem sucesso. Pediu para transmitirmos o recado, pois tem certa urgência”. Em outra mensagem, a mesma funcionária é avisada que “Léo Pinheiro e Skaf” ligaram há pouco e “os dois pediram retorno.”

Documento

Léo Pinheiro contra-ataca e apresenta documentos para provar acusações contra Lula


Imediatamente após as delações de Léo Pinheiro, os petistas saíram em peso para dizer que o empreiteiro estava mentindo. Pinheiro havia contado que Lula era o dono do triplex, que requisitou a reforma e que ainda solicitou a destruição de provas. Se as acusações eram fortes, chamá-lo de mentiroso também seria considerado um ato hostil por parte do empreiteiro.
Agora sabemos, via blog do Noblat, que Léo Pinheiro vai utilizar um conjunto de documentos para mostrar que falou a verdade.
Com cartas na manga, o empresário possui informações que incluem agenda de encontros pessoais entre os dois no primeiro ano de investigação da Lava-Jato, além de centenas de telefonemas e contatos relacionados às tratativas em torno do tríplex do Guarujá, o qual, segundo o empresário, estava reservado à família Lula desde que a OAS assumiu as obras do Edifício Solaris, em 2009.
As informações incluem também viagens feitas pelo empreiteiro ao Guarujá para encontros com Lula e dona Marisa, que devem ser corroboradas com os roteiros de viagens ao litoral paulista feitos por veículos registrados em nome do Instituto Lula. Os contatos por e-mail feitos para reformas no apartamento – personalizado para o casal – e a compra de móveis e eletrodomésticos, o que já havia sido relevado anteriormente pelos investigadores. DO J.LIVRE

Eliane Cantanhêde: Fala, Palocci!

A defesa, o sítio e o triplex de Lula desabam e o foco se desloca para Palocci

Publicado no Estadão
Léo Pinheiro é a pá de cal na defesa do ex-presidente Lula, mas a bola da vez é o seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que conseguiu a proeza de despencar não de um, mas de dois governos diferentes, e continuou aprontando das suas com uma desenvoltura tão surpreendente quanto seu inalterável ar de bom moço, até cair nas garras da Lava Jato e ser considerado hoje o futuro delator com potencial mais explosivo.Em suas delações ao juiz Sérgio Moro e aos procuradores, Marcelo Odebrecht contou que era ele, Palocci, quem administrava a conta “Amigo” na empreiteira, um cheque em branco que abastecia as vontades e os luxos da família Lula da Silva. E, no relato dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura, os acertos de valores, prazos e formas de pagamento para, primeiro, salvar a imagem do presidente Lula e, depois, os votos do candidato Lula, após o mensalão, foram feitos diretamente no gabinete da Fazenda.
Palocci, aliás, foi preso em setembro do ano passado sob a suspeita de ter favorecido a Odebrecht numa medida provisória sobre benefícios fiscais, numa licitação da Petrobras para compra de navios-sonda, num financiamento do BNDES para obras da empreiteira em Angola e na doação de um terreno para o Instituto Lula.
Em sendo assim, Palocci tinha múltiplas personalidades: era ministro da Fazenda e ditava a política econômica, mas ao mesmo tempo lobista da Odebrecht, operador financeiro do PT e gerente da conta de Lula naquele banco da empreiteira chamado de Setor de Operações Estruturadas. Era três em um, ou melhor, quatro, cinco ou seis em um.
Palocci começou cedo. Basta olhar para as fotos dele cercado por seus assessores na prefeitura de Ribeirão Preto para perceber que havia algo errado. Bonachão, com seu ar e seus óculos de aluno estudioso, era cercado por figuras que acabaram encalacradas na justiça.
Mas Palocci pousou em Brasília com os ventos alvissareiros da primeira eleição de Lula. O médico que assumia a Fazenda. O ex-prefeito com aura de competência. O hábil que driblou vários concorrentes e ficou lado a lado com o presidente. O pragmático que jogou no lixo as teses econômicas do PT e virou o queridinho do mercado – e da mídia.
A primeira surpresa de quem não conhecia as histórias de Palocci em Ribeirão foi saber de uma casa alugada no bairro mais nobre de Brasília, onde eram dadas festas de arromba e havia um estranho trânsito de malas de dinheiro. E ele não teve o menor prurido em usar seus poderes para quebrar o sigilo do caseiro que contara detalhes sobre a casa subitamente famosa.
Palocci desabou da Fazenda de Lula, mas ressurgiu igualmente poderoso na campanha de Dilma Rousseff em 2010 e dali para a Casa Civil. E desabou de novo, por não explicar a compra de um apartamento de R$ 7 milhões, que era dele, mas não era dele, cheio de mistérios. Não se sabe se ele aprendeu com Lula, ou se Lula aprendeu com ele…
É assim, com essa trajetória tão atribulada, sua relevância no centro do poder e agora seu desconforto em sete meses de prisão, que Palocci se torna a bola da vez. Ainda há muito o que contar sobre Lula e os governos petistas, mas o grande terreno a ser desbravado não é do lado corrupto, mas do lado corruptor. O que se sabe do sistema financeiro na Lava Jato?
Em seu depoimento desta quinta-feira, 20, a Sérgio Moro, o ex-ministro foi de uma gentileza que raiou a sabujice ao se oferecer como delator: “Se o senhor estiver com a agenda muito ocupada, a pessoa que o senhor determinar, eu imediatamente apresento todos esses fatos, com nomes e endereços, para um ano de trabalho”. Os investigadores esfregam as mãos, os investigados entram em pânico. DO A.NUNES

Lula pede e a OAS compra o silêncio de Rosemary


Em negociação de delação premiada, Léo Pinheiro revela que, a pedido do ex-presidente, contratou a empresa do então marido de Rose, a ex-secretária do petista acusada de tráfico de influência.
Objetivo era o de silenciá-la.
ISTOÉ teve acesso à prova que estabelece o elo entre a New Talent e a empreiteira
HOMEM BOMBA
Ex-presidente da OAS e amigo de Lula, Léo Pinheiro dará detalhes à Justiça sobre a operacão montada para comprar o silêncio de Rosemary

(Crédito: RAFAEL ARBEX/AE)

Pedro Marcondes de Moura,
SÉRGIO PARDELLAS

ISTOÉ

SOB SUSPEITA
O escritório da New Talent, destino de recursos pagos pela OAS para Rose, fica neste prédio simples na zona sul de São Paulo
(Crédito:Reprodução)
Um dos capítulos do acordo de delação premiada que o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, vem negociando com a Lava Jato trata especificamente dos favores prestados pela empreiteira a Lula. É nele que Pinheiro vai relatar aos procuradores como foi montada e executada uma operacão destinada a comprar o silêncio de Rosemary Noronha, a protegida do ex-presidente petista. Detalhará como a empreiteira envolvida no Petrolão a socorreu após ela ser demitida do gabinete da Presidência em São Paulo, em dezembro de 2012, e ter se tornado alvo da Polícia Federal na Operação Porto Seguro pelo envolvimento com uma organização criminosa que fazia tráfico de influência em órgãos públicos. Conforme Léo Pinheiro já adiantou aos integrantes da Lava Jato, uma das maneiras encontradas pela OAS para ajudá-la foi contratar a New Talent Construtora, empresa do então cônjuge de Rose, João Vasconcelos. A contratação, disse Pinheiro, atendeu a um pedido expresso de Lula. Documentos em poder da força-tarefa da Lava Jato e de integrantes do Ministério Público de São Paulo, aos quais ISTOÉ teve acesso, confirmam que a New Talent trabalhou para a OAS.
Mensagens trocadas por executivos da OAS no fim de 2014 interceptadas pela Polícia Federal na Operação Lava Jato mostram a pressa dos dirigentes da empreiteira em “resolver o problema de João Vasconcelos e Rose.” Nas conversas, em que chegaram até a mencionar os telefones da protegida de Lula e do ex-marido dela, os executivos narram a pressão do “amigo”, possivelmente o ex-presidente Lula, para que fosse encontrada logo uma solução. Pudera. Fora do cargo, respondendo criminalmente na Justiça e sem o prestígio de outrora, Rosemary Noronha fazia chegar à cúpula do partido que se sentia abandonada. Não escondia o descontentamento com integrantes da gestão Dilma. Acreditava que o Palácio do Planalto nada fez para protegê-la da Operação Porto Seguro. Rose atemorizava os petistas com uma possível delação. Os petistas temiam que ela contasse o que testemunhou graças à proximidade de décadas com o ex-presidente Lula. Os dois se conhecem desde 1988. Na época, ela trabalhava na agência em São Bernardo do Campo onde o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC possuía conta. Pouco depois, passou a gerenciar as contas do próprio Lula e recebeu um convite para secretariá-lo no escritório do PT em São Paulo. Ficou doze anos no cargo. Nos bastidores do partido, comentava-se que uma opinião dela poderia viabilizar ou encerrar de vez as chances de alguém se reunir com o futuro presidente. Quando o PT chegou ao Palácio do Planalto em 2003, Rose logo recebeu um cargo. Foi designada assessora do gabinete do executivo federal em São Paulo e, depois, chefe do escritório da presidência da República na capital paulista. Não raro, ausentava-se da cidade para acompanhar as comitivas do petista em eventos e viagens ao exterior. Seu poder era tanto que poucas pessoas arriscavam se indispor com Rosemary. Mesmo com a posse de Dilma, Rose se manteve no posto na cota de Lula.
Com a delação da OAS em mãos, não será difícil para as autoridades comprovarem como foi, de fato, colocado em prática o plano para comprar o silêncio de Rosemary Noronha via a contratação da empresa do seu ex-marido. A primeira prova que estabelece o elo entre a New Talent e a OAS já foi fornecida aos promotores paulistas e procuradores do Petrolão. Diz respeito à recuperação judicial da própria empreiteira. Denunciada na Lava Jato, a OAS viu os seus caixas secarem com o cancelamento de contratos e o atraso de pagamentos de obras suspeitas de superfaturamento. Precisou ingressar com um pedido na Justiça para ganhar tempo para pagar bancos e fornecedores. É justamente no edital em que constam as empresas que dizem ter créditos a receber da OAS que a empresa do ex-marido de Rosemary figura. Não se sabe quanto João Vasconcelos recebeu da empreiteira no total, mas a New Talent Construtora reclama R$ 15,4 mil que teriam ficado pendentes.
O AMIGÃO OAS reformou o tríplex de Lula e o ajudou com Rosemary, que ganhou apartamento da Bancoop
(Crédito:DENISE ANDRADE/Estadão Conteúdo; WERTHER SANTANA/ESTADÃO)
Os procuradores federais e os promotores paulistas tiveram mais surpresas ao esquadrinharem a empresa. Apesar de se dizer uma companhia de engenharia de “construção de edifícios” na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), a New Talent sequer possui um veículo. Sua sede fica em uma pequena sala de um prédio simples de quatro andares em cima de uma farmácia na zona sul da capital paulista. Possui capital social de R$ 120 mil, valor irrisório se comparado ao de outras firmas do mesmo ramo. No papel, a New Talent tem outras duas pessoas como donas. A primeira é o genro de Rose, Carlo Alexandro Damasco Torres. A segunda, Noemia de Oliveira Vasconcelos é mãe do ex-marido de Rose. Em comum, os dois sócios possuem patrimônios incompatíveis com um negócio deste porte. Segundo as autoridades, a empresa pertence a João Vasconcelos, o ex-cônjuge de Rose. Em contratos da companhia, é ele quem aparece como o responsável.
Na ficha da New Talent na Jucesp consta ainda um pedido de bloqueio de bens de outubro de 2015 de mais de R$ 2 milhões. Trata-se de uma decisão tomada pela Justiça Federal com base nas acusações de improbidade administrativa contra Rose, o ex-marido João Vasconcelos, a New Talent e outros investigados na Operação Porto Seguro por integrarem uma rede de tráfico de influência no setor
público.
DENÚNCIA
Na edição que circulou sábado 6, ISTOÉ mostrou outros favorecimentos à Rosemary

(Crédito:Reprodução)


UM PRESENTE MILIONÁRIO

As ajudas recebidas por Rosemary Noronha foram além do contrato firmado pela OAS com a New Talent a pedido de Lula. Como ISTOÉ mostrou com exclusividade na sua última edição, a amiga do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria recebido um dúplex no Condomínio Residencial Ilhas D’ Itália, com cerca de 150 metros quadrados e piscina interna, localizado em uma área valorizada da capital paulista. Documentos e depoimentos colhidos por integrantes do Ministério Público de São Paulo que conduzem a operação Alcatéia, uma nova fase da investigação do tríplex ocultado pela família Lula no Guarujá, mostram que há fortes indícios de que Rose recebeu o apartamento sem pagar nada pelo bem. O empreendimento foi iniciado pela falida Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), que lesou sete mil famílias, e finalizado pela OAS. Rose faria parte de um grupo de pessoas ligadas a Lula, à cúpula do PT e à Central Única dos Trabalhadores que teria se beneficiado de fraudes na cooperativa e das transferências de empreendimentos inacabados para a OAS.
Em nota enviada à ISTOÉ na última semana, Rosemary Noronha afirmou que não recebeu “nenhum apartamento” e que forneceu “documentação que comprova a quitação do apartamento que” adquiriu. A questão, para o Ministério Público de São Paulo, é que Rosemary enviou apenas os comprovantes de pagamento de um outro imóvel, localizado no Condomínio Torres da Mooca. Não mandou aos promotores nenhum documento ou explicação do dúplex de 150 metros quadrados, que está em nome de sua filha Mirelle. Às autoridades, a própria Mirelle disse que quem obteve o dúplex foi sua mãe. Em janeiro de 2014, Rose teria repassado o imóvel para a filha, que também não conseguiu comprovar o pagamento. DO R.DEMOCRATICA

Para TV espanhola, Temer fala sobre Lava Jato e diz que Moro 'cumpre o seu papel adequadamente'

Parte da conversa com os jornalistas espanhóis, gravada na última quinta-feira (20), no Palácio do Planalto, foi dedicada aos possíveis impactos que os desdobramentos das investigações poderão ter nas atividades do Congresso e na economia brasileira

BRASÍLIA - Em entrevista à Televisão Espanhola (TVE), o presidente Michel Temer considerou que o juiz Sérgio Moro, responsável pela condução de parte das investigações da Operação Lava Jato, “cumpre o seu papel adequadamente”.
Parte da conversa com os jornalistas espanhóis, gravada na última quinta-feira (20), no Palácio do Planalto, foi dedicada aos possíveis impactos que os desdobramentos das investigações poderão ter nas atividades do Congresso e na economia brasileira.
Questionado sobre a atuação de Moro e sobre o instituto de delação premiada realizada no âmbito da Lava Jato, Temer ressaltou:
“[Moro] cumpre o seu papel como membro do poder Judiciário, como devem fazer todos que o compõe. Creio que ele cumpre o seu papel adequadamente. Qualquer consideração negativa que eu faça sobre a delação será prejudicial porque podem entender que queremos acabar com a Lava Jato”.
Temer também classificou como “triste” o fato de parte do governo ser alvo de inquéritos decorrentes das investigações. Entre aqueles que o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de inquéritos estão nove ministros do governo Temer, 29 senadores e 42 deputados federais, entre eles os presidentes das duas Casas. Fachin também pediu ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que se manifeste sobre um recurso do PSOL, que pede a inclusão do presidente Michel como investigado em um dos inquéritos abertos com base nas delações da Odebrecht. O inquérito em que o PSOL entrou com recurso vai apurar pagamento de vantagens indevidas em um processo licitatório que o Grupo Odebrecht participou dentro do Plano de Ação de Certificação em Segurança, Meio Ambiente e Saúde (PAC SMS).
“Sim me parece triste, não posso falar outra coisa. Mas em relação a essas investigações, temos que esperar que o poder Judiciário condene ou absolva as pessoas”, afirmou Temer.
Apesar dos desdobramentos das investigações, o presidente ressaltou aos espanhóis que as atividades no País serão mantidas dentro da normalidade. “Brasil não para. Portanto, não será a corrupção que vai paralisar o País”.
Visita. A íntegra da entrevista, de 25 minutos, com o presidente Temer deverá ser disponibilizada pela TVE a partir das 16h deste sábado (22). A divulgação da conversa ocorre dois dias antes de o presidente Espanhol Mariano Rajoy, desembarcar no Brasil. Rajol fará uma visita oficial, entre 24 e 25 de abril, acompanhado de um grupo de empresários e investidores interessados no País.
“Há uma aproximação cada vez maior entre a Espanha e o Brasil. Já temos laços de amizade e institucionais muito assentados e a relação comercial muito próspera”, afirmou Temer, na conversa com os jornalistas espanhóis.
Entre os assuntos que os dois presidentes devem abordar, estão as negociações do acordo do Mercosul com a União Europeia. Os mandatários tratarão também dos desafios do cenário internacional. A agenda oficial, em Brasília, incluirá um almoço oferecido por Temer em homenagem ao presidente Rajoy, que participará ainda de outros eventos: um seminário sobre oportunidade de negócios no Brasil e um sobre as relações Brasil-Espanha. Empresários e personalidades brasileiros e espanhóis também estarão presentes.DO ESTADÃO

Editorial do Estadão: Os efeitos da demagogia

Governos do PT entenderam que justiça social é ato de vontade. O resultado da insanidade está aí

 22 abr 2017, 07h58
Dos perversos efeitos da irresponsabilidade fiscal dos governos lulopetistas, os mais significativos foram a reversão da queda da desigualdade e a estagnação do desenvolvimento humano, constatadas por estudos recém-publicados. Tal cenário indica o grau de deterioração do bem-estar da atual geração de brasileiros e, especialmente, as perspectivas sombrias para as próximas, algo que não pode ser modificado por medidas triviais. Se era preciso alguma prova de que a promessa demagógica de felicidade instantânea e sem sacrifícios pereniza a mediocridade e compromete o futuro do País, a prova aí está.
O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostrou que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, com dados de 2015, ficou estagnado pela primeira vez desde 2004. Isso significa que as políticas de Lula da Silva e, principalmente, de Dilma Rousseff, a título de fazer “justiça social” e “incluir o pobre no Orçamento”, como gostam de alardear os ex-presidentes petistas, na verdade tiveram o efeito exatamente oposto ao pretendido – isto é, em vez de ajudar os mais pobres, interromperam o processo de melhoria da qualidade de vida do conjunto da sociedade.
O IDH leva em conta renda, educação e saúde. Vai de 0 a 1 – quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento. Em 2015, o Brasil obteve IDH de 0,754, o mesmo de 2014. Entre 188 países, o Brasil ficou estacionado em 79.º lugar, ao lado de Granada. Continua entre os países considerados de “alto desenvolvimento humano”, mas encontra-se abaixo de Cuba (68.º) e Venezuela (71.º).
Quando o índice é ajustado se levando em conta a desigualdade – de renda, de saúde e de educação –, o Brasil cai 19 posições. Pelo Coeficiente de Gini, que mede especificamente a desigualdade de renda, o Brasil aparece como o 10.º mais desigual entre 143 países. Esse aspecto aparece em outro estudo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), segundo o qual em 2016 houve o primeiro aumento da disparidade de renda domiciliar per capita em 22 anos. Isso significa que o ganho proporcionado pela estabilização da economia com o Plano Real, implementado há 23 anos, foi comprometido pelos governos de Lula e Dilma.
A façanha da dupla é espantosa. A partir de meados dos anos 1990 o Brasil começou a caminhar para reduzir a afrontosa desigualdade de renda que marca sua sociedade desde sempre. O controle da inflação deu o primeiro impulso para isso, pois permitiu que os mais pobres parassem de pagar, na forma do chamado “imposto inflacionário”, o custo do endividamento inconsequente do governo.
Foi necessário ainda um grande esforço para levar escolaridade às classes mais baixas, aumentando suas possibilidades no mercado de trabalho. Além disso, os programas de transferência condicionada de renda foram importantes para ajudar a mitigar a miséria. Tudo somado, esperava-se que, no ritmo verificado a partir do início dos anos 2000, o Brasil já tivesse erradicado a pobreza extrema por volta de 2016. Mas isso não ocorreu. Ao contrário, em 2015 voltou a crescer o número de famílias com rendimento per capita inferior a 25% do salário mínimo, chegando a 9,2% da população, contra 8% em 2014, de acordo com dados do IBGE. Um ano depois, em 2016, a desigualdade cresceu 1,6% em relação a 2015, conforme o estudo da FGV, anulando os ganhos dos anos anteriores.
Os indicadores de desigualdade são especialmente significativos porque refletem os efeitos de longo prazo das políticas econômicas. A redução da renda dos mais pobres e o consequente aumento do abismo destes em relação aos mais ricos, depois de um período em que essa diferença parecia fadada a diminuir em razão da maturidade econômica e institucional do País, não resultam de erros pontuais, mas sim de decisões que respeitaram uma visão totalmente equivocada do papel do Estado no desenvolvimento. Mas os governos petistas entenderam que justiça social não é o resultado de um processo econômico de longo prazo, e sim um ato de vontade. O resultado dessa insanidade está aí.

Restrição à aplicação do foro privilegiado já tem maioria no Supremo

Julgamento que pode impactar processos da Lava-Jato está programado para 31 de maio 

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BRASÍLIA - Preocupados com a falta de estrutura para lidar com a avalanche de processos que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) com a delação da Odebrecht, os ministros deverão mudar a regra do foro privilegiado. Pelo menos seis dos 11 integrantes da mais alta Corte do país se mostram favoráveis à restrição da aplicação do foro — o que, na prática, vai proporcionar a transferência para a primeira instância do Judiciário de vários processos que hoje tramitam no Supremo, desafogando os gabinetes e proporcionando a tramitação mais célere dos casos remanescentes. O julgamento sobre o foro está marcado para 31 de maio.
A maioria dos ministros do STF está convencida de que, se não for aprovada a mudança, o tribunal não tem como conduzir tantos processos penais sem que eles prescrevam, deixando os investigados impunes sem ao menos haver julgamento. As regras de prescrição estão expressas no Código Penal. Por exemplo: quem responde a inquérito apenas por caixa dois, cuja pena é de até cinco anos de prisão, pode ser beneficiado pela prescrição 12 anos depois do fato. Esse prazo é reduzido à metade se o investigado tem mais de 70 anos.
A ação que discute a restrição do foro especial é relatada pelo ministro Luís Roberto Barroso e foi liberada para a pauta do plenário em janeiro.
Com a chegada dos novos processos, a presidente do tribunal, ministra Cármen Lúcia, se convenceu de que não há mais motivo para o STF adiar essa discussão e pautou o julgamento para o mês que vem.
A Constituição Federal define o STF como o foro para processar e julgar as principais autoridades do país: senadores, deputados federais, ministros de Estado, ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e o presidente da República. No processo que será julgado, Barroso sugeriu que o foro privilegiado seja aplicado apenas a autoridades que cometeram crimes durante o mandato, relativo ao cargo específico ocupado. Atualmente, o foro especial vale para qualquer crime atribuído a autoridades, independentemente de quando foi cometido e do tipo de crime praticado.
Um dos grandes impasses para a celeridade de processos é a troca constante de foro. Se um cidadão comum comete crime, o processo é aberto na primeira instância. Se, em seguida, ele é eleito deputado, por exemplo, o caso é transferido para o STF. E se o tribunal não conseguir julgar o caso durante o mandato do parlamentar e ele não for reeleito — o que é bastante comum —, o processo segue novamente para a primeira instância. A mudança de juiz para conduzir a ação muitas vezes atrasa as investigações, porque o magistrado precisa analisar tudo o que foi feito pela instância anterior e determinar, se for o caso, a produção de novas provas.
Alguns ministros do STF concordam integralmente com a proposta de Barroso. Outros aprovam a mudança na regra do foro, mas têm propostas diferentes. Mesmo que não seja aprovada a proposta de Barroso, o tribunal deverá promover a mudança, ainda que de forma menos abrangente. Cármen Lúcia tem falado sobre a necessidade de rediscutir a regra a vários interlocutores, de forma pública e privada. DO O GLOBO

Dívidas com INSS superam R$ 400 bilhões

Entre as cinco que lideram o ranking, estão três empresas falidas; parlamentares querem do governo ações para aumentar a arrecadação

BRASÍLIA - As recentes mudanças que abrandaram as regras propostas na reforma da Previdência foram insuficientes para agradar aos parlamentares, que seguem pedindo uma ação mais incisiva do governo em ações para incrementar a arrecadação do INSS. Um dos alvos é a lista bilionária de devedores da Previdência Social. De acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), o estoque da dívida ativa previdenciária chegou a R$ 427,73 bilhões no fim do ano passado.
Três das cinco maiores devedoras estão falidas, de acordo com o acompanhamento da PGFN: Varig (R$ 3,7 bilhões), Vasp (R$ 1,7 bilhão) e Bancesa, banco cearense quebrado em 2004 (R$ 1,4 bilhão). Mas as outras duas estão em operação.
devedores

Uma delas é a JBS, segunda maior empresa de alimentos do mundo, com dívida de R$ 1,84 bilhão. Também está no “pódio” a Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), mantenedora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), que recentemente enfrentou problemas financeiros e de gestão.
A elevada dívida previdenciária é tida como privilégio pelos parlamentares, que acusam o governo de não atacar o problema. Na lista de inadimplentes estão empresas ligadas ao poder público, como a Caixa Econômica Federal, com débito de R$ 549,5 milhões; os Correios, com dívida de R$ 378 milhões; e o Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul (Ipergs), que cuida das aposentadorias dos servidores gaúchos. A dívida do Ipergs com o INSS é de R$ 395,5 milhões.
Foto: DUSEK | ESTADAO CONTEUDO
Maia
Expostos à pressão de diversas categorias contrárias à reforma, os parlamentares cobram uma reação do governo. O relator, deputado Arthur Oliveira Maia (PPS-BA), inseriu em seu relatório um dispositivo que pode facilitar a cobrança de parte da dívida. Segundo a regra, os acionistas controladores, administradores, gerentes, diretores e prefeitos respondem solidariamente, “com seu patrimônio pessoal”, caso os pagamentos das contribuições sejam atrasados de forma intencional ou por culpa desse agente.
Além disso, o Congresso quer intensificar a fiscalização sobre os números da Previdência. O deputado Roberto de Lucena (PV-SP) vai protocolar, no início da próxima semana, uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público. A iniciativa prevê o apoio do Tribunal de Contas da União (TCU) para realizar auditoria que vai mirar as contas da Previdência e as dívidas.
“Estamos pagando a conta da má gestão dos recursos e jogando novamente para cima do trabalhador”, diz Lucena, cujo partido integra a base do governo do presidente Michel Temer. “A sociedade vai entender que a reforma é justa se ela também enfrentar privilégios”, afirma.
No Senado já há uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Previdência que aguarda para ser instalada. A iniciativa partiu do senador Paulo Paim (PT-RS), mas foi endossada por aliados do governo, incluindo o líder no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). Segundo Jucá, a CPI é importante para desmistificar de vez as diversas versões de a Previdência no Brasil “dá lucro e não está quebrada”.
‘Injustiça’. O argumento dos parlamentares é que, mesmo que parte desse valor não seja recuperável, é injusto endurecer as exigências de aposentadoria dos trabalhadores antes de ampliar o esforço para cobrar essa dívida. Os débitos dos 500 maiores devedores ultrapassam sozinhos os R$ 80 bilhões, segundo relatório da PGFN enviado à comissão especial da reforma da Previdência.
Veja o Placar do 'Estado'
Em meio à crescente polêmica sobre a lista, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, rebateu no início da semana as críticas à dívida. “Os devedores são cobrados de forma rigorosa. Mas a maioria, quase 60%, é de companhias falidas”, disse o ministro. Ele não falou sobre as devedoras em atividade.
No ano passado, a PGFN recuperou R$ 4,15 bilhões de créditos previdenciários, segundo o relatório enviado à comissão. A Procuradoria disse ainda que atua em diversas frentes, o que inclui a “negativação” da empresa para efeitos de concessão de crédito com recursos públicos, isenções, assinaturas de convênios, bem como a cobrança via carta, protesto extrajudicial e ajuizamento de execução fiscal.
Empresas dizem que discutem os débitos na Justiça
Procurada pela reportagem, a JBS informou que os débitos "estão sendo discutidos judicialmente e já tiveram seus pagamentos propostos com créditos em dinheiro que a JBS tem para receber da Receita". A companhia informou ainda que os pagamentos previdenciários de seus colaboradores estão em dia. A Ulbra não respondeu até o momento da publicação deste texto.
Os Correios disseram que pagam as contribuições previdenciárias pontualmente: “Quaisquer valores em aberto são objeto de discussão administrativa ou judicial”.
A reportagem não conseguiu contato com o Ipergs, mas a Secretaria de Fazenda do Rio Grande do Sul alegou que o Estado é credor do INSS em quase R$ 800 milhões.
A Caixa afirmou que “atua em processos administrativos e judiciais exercendo o amplo direito de defesa sempre que os parâmetros de cobrança da fiscalização tributária são considerados indevidos”. No caso da dívida previdenciária, o banco disse que o tema “usualmente discutido” é a incidência de cobrança previdenciária sobre verbas consideradas indenizatórias (isentas do INSS) pela instituição, enquanto o Fisco considera como remuneratória, sem isenção. DO ESTADÃO

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lava-Jato: depois dos polêmicos casos do sítio e do triplex, Lula agora está preocupado com Palocci


Os escândalos do sítio em Atibaia e do apartamento triplex em Guarujá já não preocupam tanto a defesa de Luiz Inácio da Silva, que até agora não conseguiu provar a aludida inocência do dramaturgo do Petrolão. Por enquanto, o advogado Cristiano Zanin Martins, porta-voz dos defensores do petista, tem se limitado a negar o inegável.
A preocupação dos criminalistas que tentam salvar Lula de inevitável condenação migrou para a possibilidade cada vez mais real de o “companheiro” Antonio Palocci Filho aderir à colaboração premiada. Preso desde 26 de setembro, no rastro da Operação Omertà (35ª fase da Operação Lava-Jato), Palocci já percebeu que a saída para deixar o cárcere é revelar o que sabe sobre o maior esquema de corrupção de todos os tempos, o Petrolão. Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, responsável na primeira instância da Justiça Federal pelos processos decorrentes da Lava-Jato, na quinta-feira (20), em Curitiba, o ex-ministro disse que está disposto a colaborar e que tem informações em quantidade suficiente para que o magistrado trabalhe pelo menos mais um ano. Palocci afirmou que tem documentos, nomes e endereços de pessoas que realizaram operações que violam a legislação.
Alegando que jamais cobrou propina enquanto ministro de Estado, Antonio Palocci Filho afirmou serem mentirosas as declarações de políticos e partidos de que doações de campanha foram recebidas de forma legal e de acordo com o que determina a legislação eleitoral. O petista declarou que caixa 2 sempre existiu e que ninguém pode negar esse fato.
Com o Partido dos Trabalhadores na alça de mira de Palocci, que foi abandonado pelos “companheiros”, a cúpula da legenda já trabalha com o pior cenário: a abertura da cortina que esconde detalhes sobre o esquema de corrupção que sempre moveu a política nacional, mas que alcançou seu ápice na era petista.
A chance de Antonio Palocci avançar nas negociações de acordo de colaboração premiada ganhou reforço extra nesta semana, pois o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou pedido de habeas corpus protocolado pela defesa do ex-ministro da Fazenda. De tal modo, a delação é o que sobrou ao petista.
No caso de Palocci chegar a bom termo com os integrantes da força-tarefa da Lava-Jato, as investigações deverão abrir uma nova frente, já que o ex-ministro prestou serviços de consultoria (sic) a bancos e instituições financeiras, como antecipou o UCHO.INFO há anos.
A declaração de Antonio Palocci no depoimento ao juiz da Lava-Jato, de que está disposto a colaborar, foi um claro e derradeiro recado ao Partido dos Trabalhadores. Quem conhece a política nacional em suas entranhas sabe que as principais legendas aproximam-se de forma célere da implosão. Isso porque apenas um contingente pequeno de políticos escapará das garras da Lava-Jato.
21 de Abril de 2017- DO R.DEMOCRATICA