14/06/2015 23h06
- Atualizado em
14/06/2015 23h27
Presidente
que empregava parentes e família pode ter desviado R$ 100 milhões. Até
passeio pela Disney foi feito com o dinheiro dos contribuintes.
A missão de um sindicato é lutar por benefícios para os trabalhadores.
Certo? Mas em vários lugares do país, não é isso o que vem acontecendo.
Esses sindicatos são controlados por dirigentes corruptos, e no fim, o
dinheiro sai do bolso do trabalhador e vai direto para o bolso deles.
Mesmo que você não seja sindicalizado vai se indignar e muito com essa
história, porque pessoas que agem como donos de sindicatos usam dinheiro
do trabalhador para ganhar poder e fazer fortuna.
“O diretor falou para ele: 'Olha, se você fizer alguma coisa contra a
gente, a gente incrimina você e não precisa nem de prova, prova a gente
cria, porque a gente compra todo mundo”, diz uma pessoa que preferiu não
se identificar.
Rio de Janeiro. Sindicato dos Comerciários, mas pode chamar de casa dos
Mata Roma. Este é o sobrenome da família que mandava por lá havia quase
50 anos. Mandava e desmandava.
“Não era funcionário, não era presidente, não era vice-presidente ou
diretor. Eles eram o dono do sindicato”, conta um funcionário.
Luizant Mata Roma chegou ao sindicato como interventor, nomeado pela
Ditadura Militar, em 1966. E não saiu mais. Foi presidente durante 40
anos. Só deixou o cargo quando morreu em 2006. Quem assumiu? O filho
dele, Otton da Costa Mata Roma. A lista dos Mata Roma empregados no
sindicato tem 15 parentes.
“A maioria dos parentes não trabalhava. Eles eram lotados todos nesse
gabinete aqui. Mas você não os via no sindicato. Só os via em final do
mês, época de pagamento”, revela o interventor José Carlos Nunes.
Carolinsk Mata Roma, a atual mulher do presidente, era a assessora
especial da Presidência. O salário era de quase R$ 22 mil. O filho de
Otton, Aran Mata Roma, também quase R$ 22 mil.
Só recebia mais que eles a irmã do presidente, Monica Mata Roma: R$ 23
mil por mês para ser a supervisora sindical. A mãe dele, dona Aderita,
também recebia salário do sindicato. Para ser coordenadora de creche: R$
10 mil por mês.
Se funcionários ganhavam tudo isso você deve estar se perguntando: e os
diretores? Todos tinham salários de R$ 50 mil a R$ 60 mil. E ainda
havia um cartão corporativo, desses que empresas grandes dão aos
executivos mais importantes. Os extratos mostram que as faturas, sempre
pagas pelo sindicato, chegavam a R$ 30 mil, R$ 35 mil em um único mês.
“Você tem ali um recurso para usar em prol do sindicato, em prol da
categoria e nós verificamos através da auditoria feita que esse recurso
do cartão corporativo era usado exclusivamente para atender interesses
pessoais”, afirma o interventor José Carlos Nunes.
Uma auditoria contratada pela Justiça investigou a contabilidade entre
os anos de 2009 e 2014 e descobriu um rombo de R$ 100 milhões. O valor
reúne as diferenças encontradas nas contas do sindicato, despesas
suspeitas com advogados, dívidas em impostos, juros e multas e outros
gastos.
“Nós sabemos de valores superfaturados de contratação. Isso está tudo documentado.
Na verdade o presidente do sindicato junto com sua família, porque
aquilo era uma reunião de familiares, usavam aquilo para fins próprios”,
afirma o juiz Marcelo Antonio de Moura.
Nessas quase cinco décadas não faltou dinheiro para uma vida luxuosa.
Na lista de bens, tem mansão em condomínio de luxo avaliada em mais de
R$ 2 milhões, apartamentos, casas de campo, terrenos, carros importados,
lancha e também viagens internacionais.
O sindicato pagou o combustível de voos feitos pelo presidente em
aviões particulares e até um passeio pela Disney. Uma das notas na
viagem para ver o Mickey é de R$ 11 mil.
Por falar em viagens, em junho de 2013, Otton Mata Roma viajou para a
Suíça. Ele foi nomeado pela presidente Dilma Rousseff para ser o
representante do Brasil em uma conferência mundial sobre trabalho.
O Sindicato dos Comerciários do Rio se tornou uma empresa familiar tão
próspera que a direção decidiu investir em outros negócios, que foram
muito além dos muros do sindicato. Otton Mata Roma é sócio de duas
empresas de táxi aéreo. Tem dois aviões e um helicóptero.
“O Otton fechou uma sub sede do sindicato em Copacabana que atendia os
comerciários e ali ele transformou na sede das duas empresas dele”,
revela o interventor José Carlos Nunes.
A Justiça do Trabalho diz que os comerciários, que deveriam ser
defendidos pelo sindicato, nunca tiveram nada além do que é garantido
pela constituição. O piso da categoria não chega a R$ 1 mil. E o que
deveria ser um benefício...
O lugar, mostrado no vídeo acima, é de dar inveja a muitos associados
de sindicatos por aí. Na tranquilidade do campo, uma bela infraestrutura
em um espaço enorme. Mas apesar de todo o dinheiro investido ali ser
dos trabalhadores, não eram eles quem mais aproveitavam. A família que
comandava o Sindicato dos Comerciários fazia questão de deixar avisos
por todos os lados de que era a verdadeira dona de tudo.
A fazenda em Paty do Alferes, município perto do Rio, deveria ser a
colônia de férias dos comerciários. Até ganhou esse nome, mas...
“A colônia de férias sempre foi tida pela comunidade como uma
propriedade particular da família Mata Roma. Agiam como donos”, diz um
homem que preferiu não se identificar.
A farra só chegou ao fim em outubro do ano passado. A Justiça ocupou o
sindicato. Era uma intervenção. A pedido do juiz, o presidente e os três
principais diretores foram afastados e tiveram bens bloqueados. Todos
os parentes foram dispensados. Otton Mata Roma não quis gravar
entrevista. O advogado dele questiona a investigação.
“Eu não encontrei nenhuma situação onde eles apontassem diretamente
‘olha, houve o desvio, está aqui a prova’. O que acontece são ‘potencial
situação de malversação’”, diz o advogado André Ferreira.
“Contra documento eu não tenho outro argumento. Eu já tenho
documentação que comprova contratação de empresas que não prestaram
serviços e por valores altíssimos. Eu já tenho contratação de parentes.
Então nós temos uma série de irregularidades totalmente incompatíveis”,
afirma o juiz Marcelo Antonio de Moura.
O problema no Rio é um problema em todo o país. Hoje o Brasil tem quase
11 mil sindicatos de trabalhadores. A Coordenadoria Nacional de
Promoção da Liberdade Sindical, do Ministério Público do Trabalho, tem
quase 4 mil investigações abertas.
Em Recife, uma audiência para definir a eleição do Sindicato dos
Trabalhadores em Transportes acabou com tiros disparados em frente à
Procuradoria. No Mato Grosso do Sul, um grupo liderado por entidades
sindicais tentou invadir a sede do Ministério Público do Trabalho, na
cidade de Três Lagoas. E em São Paulo, a disputa por poder e dinheiro
foi levada às últimas consequências.
Um homem, mostrado na matéria acima, anunciou a própria morte e foi
executado dias depois. Ele era do Sindicato dos Rodoviários de São
Paulo. Um dos sindicatos mais importantes do país também tem uma das
histórias mais sangrentas. São 16 dirigentes assassinados nos últimos 22
anos.
Na última eleição, ano passado, o Ministério Público do Trabalho montou
uma das maiores operações já vistas para a escolha de um dirigente
sindical. Vinte procuradores e 400 policiais foram convocados para
garantir a segurança.
O novo presidente diz que os tempos de violência ficaram para trás. “Eu
acredito que vamos terminar o término do nosso mandato sem nenhum
episódio desse”, diz José Valdevan Santos, presidente do Sindmotoristas.
Em Santa Catarina, na cidade de Criciúma, trabalhadores tiraram à força
o grupo que comandava o sindicato dos mineiros havia quase 30 anos. A
história vem do fim da década de 1980. Quando uma das mineradoras da
região faliu, o Sindicato de Mineiros de Criciúma assumiu a empresa e
criou uma cooperativa: a Cooperminas. O mesmo grupo de sindicalistas
ficou no comando da empresa e do sindicato.
Até que em 2013, funcionários suspeitaram de fraudes na venda do carvão
e numa assembleia expulsaram os diretores da cooperativa. Era o fim de
quase três décadas de poder. Mas a mudança não foi pacífica. O novo
presidente da cooperativa sofreu um atentado e o vice foi assassinado
com nove tiros na porta de casa. Uma auditoria revelou a existência de
R$ 300 milhões em dívidas.
“A gente comprovou que os balanços eram fraudados, o próprio contador
na época em uma assembleia geral falou e admitiu que ele era forçado a
maquiar o balanço”, conta Juliano Medeiros, presidente da Cooperminas.
A notícia dos desvios na cooperativa fez com que mineiros também
denunciassem fraudes no Sindicato de Mineiros de Criciúma. Em julho do
ano passado, o Ministério Público do Trabalho passou a investigar o
aumento ilegal do patrimônio dos diretores.
A suspeita é que os desvios podem chegar a mais de R$ 40 milhões.
O grupo de mineiros que assumiu o sindicato depois da saída da antiga
diretoria espera uma decisão da Justiça do Trabalho sobre uma nova
eleição.
No Sindicato dos Comerciários do Rio, aquele dominado pela família Mata
Roma por 50 anos, a eleição está marcada para esta quarta-feira (17).
Mas não deve ser das mais tranquilas. Nesta semana, centrais sindicais
já protestaram contra as decisões da Justiça do Trabalho.
“A gente espera que tenha uma eleição, não vou dizer, sem percalço, não
vai ser uma tarefa fácil, a gente sabe que o movimento sindical no
Brasil inteiro estará no Rio de Janeiro no mês de junho. Então, a gente
acredita que o Ministério Público continue atuando como vem atuando para
que no Brasil inteiro essas relações promíscuas entre diretoria e
entidades sindical, elas sejam extirpadas do movimento sindical
brasileiro”, diz o juiz Marcelo Antonio de Moura. DO G1-FANTÁSTICO