quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Políticos e jornais italianos reagem a potencial liberação de Battisti

30/12/2010 - 12h15

DA FOLHA

DA AFP

Políticos e jornais italianos manifestaram indignação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes mesmo do anúncio nesta quinta-feira (30) que decidirá o futuro do ex-militante de extrema-esquerda Cesare Battisti.

Lula revelará hoje se o país status de refugiado político ao italiano, condenado à prisão perpétua por homicídio em seu país natal.

Veja cronologia do caso Battisti
Entenda o caso envolvendo o pedido de extradição de Battisti

"Battisti fica livre para assassinar a justiça", afirma na primeira página o jornal conservador "Il Giornale", que pertence à família do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi.

"A não extradição de Battisti é uma ofensa grave às instituições italianas", completa o jornal. A publicação dá como certa a concessão de refúgio político ao ex-ativista, acusado de quatro assassinatos nos anos 70 e condenado à revelia à prisão perpétua. Battisti nega os crimes.

O destino de Battisti, que já esteve exilado no México e na França, ficou nas mãos de Lula, que deve anunciar a decisão nesta quinta-feira, penúltimo dia de seu mandato como presidente.

Se o presidente optar pela liberação, Battisti precisará ainda de autorização do STF (Supremo Tribunal Federal).

Trata-se de uma decisão complexa, que criou um embate entre juristas e políticos, além de ter dividido Brasil e Itália.

"O não à extradição terá consequências. Estou disposto a apoiar boicotes", antecipou o ministro da Defesa italiano, Ignazio La Russa, em entrevista ao "Corriere della Sera".

"O não de Lula representa uma ferida nas relações bilaterais", acrescentou o ministro, que acusou o presidente de "falta de coragem" por tomar a decisão pouco antes de deixar o cargo.

'HOMEM DE ESQUERDA'

A maior legenda de esquerda da Itália, PD (Partido Democrático), pediu em uma carta aberta a Lula, chamado de "homem de esquerda" no texto, que autorize a extradição de Battisti.

"Nenhum princípio que garanta e salvaguarde os direitos universais do homem justifica que se negue a extradição ao terrorista Cesare Battisti", afirma os dirigentes do partido na carta enviada ao embaixador do Brasil em Roma.

Para o jornal "Il Messaggero", "a piada do asilo político" a Battisti obriga a Itália a adotar medidas para apresentar recursos e continuar solicitando o retorno do ex-ativista, considerado um fugitivo há 30 anos.

"A decisão de Lula nem sequer goza de consenso em sua pátria", destaca o colunista Massimo Martinelli, que garante que o governo italiano já tem preparados os recursos que apresentará no início de 2011.

O jornal de esquerda "La Repubblica" entrevistou os familiares das vítimas, que manifestaram a "amargura" com a situação e prentendem organizar um protesto.

"Teria sido suficiente pelo menos um sinal de arrependimento", comentou Adriano Sabbadin, filho de Lino, uma das quatro vítimas.

HISTÓRICO

Battisti, ex-integrante do grupo radical italiano PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), foi detido no Rio em 2007.

Em 2009, o então ministro da Justiça Tarso Genro concedeu a condição de refugiado, mas o caso terminou no Supremo Tribunal Federal (STF) por uma apelação apresentada pelo governo italiano.

O STF deixou a decisão final para o presidente.

Em 1993, a justiça italiana julgou Battisti à revelia por quatro assassinatos atribuídos ao PAC e cometidos em 1978 e 1979, tendo como testemunha de acusação o líder deste grupo, que obteve uma redução de pena por colaborar com a justiça. Battisti, que se declara inocente, foi condenado a quatro prisões perpétuas, uma para cada homicídio.

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